Numa pequena aldeia da Beira Alta, nas fraldas da Serra da Estrela, o inverno tinha chegado com os seus rigores: primeiro, chuva e vento; depois, neve e frio. Recolhidas nos seus aposentos, as pessoas falavam em voz baixa para não acordar a serra nem o Menino que, no presépio, dormia sereno e tranquilo. Por isso, o silêncio ouvia-se ao longe e ao perto, recortado apenas por chocalhos de rebanhos que recolhiam aos seus estábulos. O ar era gélido e a noite apressava-se a lançar o seu manto sobre a serra e suas imediações.
O Natal já tinha passado e aquela era uma noite diferente: os Magos estavam a chegar a Belém, guiados por uma estrela, e levavam presentes para o Menino que, por esses dias, havia nascido: ouro, incenso e mirra, reconhecendo a sua realeza, divindade e humanidade.
Vivia nessa aldeia um menino vivo e perspicaz, chamado Vicente. Tinha presenciado, por esses dias, um momento mágico: um padre vindo de longe, amigo dos seus pais, aí se deslocara para benzer a sua casa, há uns tempos restaurada. A saborear esse momento, alimentava a esperança de que algo ainda mais especial poderia estar para acontecer: uma das estrelas do céu haveria de iluminar o caminho dos Magos até ao seu presépio. Afinal, o seu irmão chama-se Salvador e, por isso, ninguém mais do que ele tinha direito a uma visita dos Magos e a presentes, iguais ou parecidos aos que, nessa noite, levavam a Jesus.
- “Quem sabe se, ao regressar à sua terra por outro caminho, os Magos não terão decidido vir à serra daquele astro que, entretanto, os levara a Jesus? Mas Belém é tão longe daqui... Talvez seja melhor não sonhar. Se chegarem cá no próximo ano, já não será mau”. Assim pensou o Vicente, durante a Ceia de Reis, mas não disse nada a ninguém, porque tinha ouvido, por esses dias, o pai a dizer a um amigo que “o segredo é a alma do negócio”.
No fim da Ceia, enquanto o pai levantava a mesa e a mãe lavava a louça, já de pijama e de olhos ainda bem abertos, o Vicente abriu a portada que desagua para a varanda e fixou o olhar na serra. Logo percebeu que, apesar de ela se chamar Serra da Estrela, só nos céus poderia escrutinar a estrela que poderia trazer-lhe os Magos. Mas havia uma dificuldade: as estrelas, nessa noite, eram poucas, como se o frio as tivesse recolhido para debaixo de um cobertor de nuvens.
Tinha ouvido os pais e os avós dizerem que, se uma estrela viesse sobre a sua aldeia na noite de Reis, a família viveria unida, com saúde e em paz. Há muito ele sonhava com um mundo assim, de famílias unidas e felizes, saudáveis e pacíficas. Sofria até por saber que tinha amigos com pais separados, por ouvir nas notícias que havia muitas crianças doentes e outras que sofriam e até morriam por causa das guerras que os adultos provocavam e fomentavam.
- “E se os Magos não encontram o caminho para aqui e vão parar a outro lado? A minha catequista disse-me que, também a caminho de Belém, por momentos, a estrela deixou de brilhar”. Assim pensou o Vicente, dizendo baixinho, para que nenhum menino ouvisse e até viesse roubar-lhe a estrela, no caso de ela chegar.
Entretanto, a mãe chamou-o, mas o Vicente não ouviu. Estava concentrado nas estrelas e a cogitar os seus pensamentos. Procurando-o pela casa toda, a mãe pensou que estivesse a fazer a brincadeira do costume: esconder-se para assustar quem o procurava. Lembrou-se, contudo, que poderia estar na varanda e foi lá que o encontrou.
- “Que fazes aqui, Vicente, tão tarde e ao frio? São horas de ir dormir, meu filho querido”, anotou a mãe.
- “Estou à espera que apareça a estrela que trará cá os Magos, com os seus presentes”, retorquiu o Vicente.
- “Deixa-te disso. Já recebeste muitas prendas no Natal. É para dormir e mais nada”, replicou a mãe.
Quando chegou ao quarto – o Salvador estava quase a dormir – sussurrou baixinho:
- “E se a estrela traz até cá os Magos, enquanto dormimos?”
Era tal o sono que o Vicente quase não acabou a frase e adormeceu. Entretanto, sonhou com um brilho que, vindo do firmamento, iluminava o presépio. E, ao longe, para os lados do Oriente, viu umas sombras montadas em dromedários. Aproximavam-se devagar e, depois de terem perguntado onde vivia o menino mais inteligente e feliz daquela aldeia, bateram à porta e uma delas interpelou-o:
- “Procuras fora de ti a estrela que nos guia? Ela está no teu coração e vai ajudar-te a descobrir as prendas que o Menino Jesus nos mandou entregar-te”.
Ao ouvir isso, o Vicente acordou, chamou o irmão e os pais, contou-lhes o sonho e foram todos ao presépio. Não viu a estrela, nem os Magos, nem as prendas, mas percebeu, então, que a verdadeira estrela brilhava no seu coração e que as pessoas que o ladeavam eram os Magos de hoje e os melhores presentes que, em noite mágica, o Menino Jesus lhe oferecia.
Cheio de sono, mas encantado, o Vicente foi deitar-se e dormiu feliz. Tinha finalmente percebido que quem anda com Jesus tem uma estrela a brilhar no coração e que a família, a saúde e a paz são os melhores presentes que o Menino Jesus nos traz.