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Continuidade dos recomeços


 

O final das coisas tem sempre algo de liminar, como se atravessássemos uma linha invisível entre o que fomos e o que ainda não descobrimos ser. Há por isso, às vezes, um sentimento impreciso de travessia que, em simultâneo convida a uma pausa. Quando um ano está a acabar, muitos se lembram das metas, dos planos e das promessas para o ainda próximo ano; embora a experiência já nos tenha demonstrado que, para março, já tudo se dissolveu no esquecimento.

Há uma diferença considerável entre a pretensão de controlo do tempo e a aprendizagem que implica escutá-lo. O inventário do tempo que fica para trás é, nesse sentido, uma escuta. Não se trata de contabilizar nada, nem sucessos e nem fracassos, mas de recolher os sinais e significados do que se viveu. Pequenos gestos que passaram despercebidos, revistos, brilham com delicada importância. Este gesto de proximidade para connosco, é um ato de gratidão, uma maneira honesta de reconhecer o caminho e, de algum modo, reconciliar-se com ele. 

Quando nos revisitamos na própria história, o que se abre diante de nós, é o nosso mapa interior. E aí descobrimos que há zonas de sombra onde preferiríamos não voltar, e há trechos de luz que gostaríamos de prolongar. Ao observar esses contornos, percebemos que o essencial está em compreender o que nos está a moldar e se isso está a ser para melhor. Cada emoção carrega uma mensagem; cada perda traz consigo o paradoxo da transformação e o reencontro. Um inventário é uma forma de autoconhecimento: de reunir aspetos do «eu» que somos, compreender melhor os contornos daquilo em que estamos a tornar-nos e sobre o que gostaríamos ou seria necessário déssemos, ou retirássemos alguma ênfase.

Talvez por isso as metas soem um tanto quanto ocas e artificiais. Elas nascem de uma ânsia por segurança, como se pudéssemos garantir algum tipo de controlo sobre o desenrolar do tempo e os seus acontecimentos. O futuro é sempre uma ilusão que escapa, enquanto o presente se torna uma realidade que surpreende. Prometer «ser uma nova pessoa» é não perceber que a transformação é qualquer coisa que já está a acontecer e que requer, antes do mais, da aceitação de quem estamos a ser.

Que tal permitir que o tempo nos revele as suas próprias perguntas em lugar de corrermos a responder-lhe com metas e planos? Talvez baste delinear algumas intenções suficientemente amplas, capazes de se ajustar ao natural fluxo das coisas. Ainda melhor pode ser atender agora aquilo que estamos a pretender cuidar depois.

Viver um dia de cada vez não é um convite à inércia, mas à presença. É caminhar com a leveza de que cada manhã traz a oportunidade de fazer novas escolhas – escutar mais, reagir menos, simplificar o complicado, etc. Quando olhamos o futuro dessa maneira, ele deixa de ser território de ansiedade e transforma-se num espaço de exploração, descoberta, desenvolvimento e liberdade.

Assim, se há um lugar em nós desde donde pode valer a pena encerrar um ciclo – neste caso um ano – esse lugar é o da ternura. Avançar não é esquecer, é acolher, integrar. O novo tempo não é promessa de recomeço e sim de continuação natural de um caminho que se está a fazer. A natureza não dá saltos. Viver um dia de cada vez é deixar que o tempo se revele, sem pressas, sem moldes. A esperança não está no que se planeia, mas no simples ato de acordar amanhã com a disposição de continuar – em paz com o que foi, curiosos com o que virá, leves no presente que nos cabe.



 

Pável Modernell

Pável Modernell

27 dezembro 2025