Com uma música leve, nostálgica, genial de Ravel, Bolero, em pano de fundo, estou sentado, num banco sem encosto, na ampla praça de uma Grande Superfície Comercial cá do burgo. Olho a cúpula, uma arrojada peça arquitectónica e de engenharia do metal de causar alguma admiração pela sua leveza e pela claridade que irradia. A “praça” está aprazível com os enfeites natalícios a dar-lhe um ar solene, familiar e nostálgico. Ao mesmo tempo, vou apreciando o movimento sereno das pessoas e a animação lojista própria da quadra festiva.
1 - No momento, estou absorto em olhadas curiosas pelo espaço que me rodeia. Um cavalheiro, entretanto, aproxima-se e mira-me com insistência. Olho de soslaio e não o reconheço de imediato. Estende-me a mão hesitante. “É o professor ...”? - balbuciou. E eu um pouco surpreendido, respondo-lhe com um sim abafado. Num breve impasse, dou comigo a recordar aquela figura, tio e encarregado de educação de um antigo aluno da minha Escola, onde lecionei um bom par de anos. Já não via o cavalheiro há muitos anos. Daí, a minha surpresa. “Sim! - respondi-lhe agora com convicção. “Sabe professor, o António, já conta cinquenta anos de idade e ainda fala muito em si. E fala com muito gosto e admiração. E eu ouvia, tentando encaixar-me na cena. A verdade é que nunca mais vi o António. Nem sei o que é feito dele. E, num desabafo lúgubre, deixei escapar aquela fatalidade da própria vida: “como o tempo passa célere”!
2 - Depois de uma longa conversa, agora bem entrosada, em que se falou da família, de histórias de vida, da Escola, dos sucessos pessoais, veio à minha memória aquele rapaz tímido, educado, mas com muitas dificuldades nas aprendizagens. Os pais estavam emigrados em França. Vivia ele, portanto, com os tios que o tratavam como fosse filho deles.
3 - Veio à minha memória também aquele episódio acontecido no final do ano lectivo. Aparecera o tio na minha casa acompanhado de um amigo comum. Visita esta não esperada de modo nenhum. Rapidamente me apercebi que a visita caseira trazia água no bico. O tio queria que o António passasse de ano, ou seja, obtivesse o diploma do sexto ano de escolaridade para poder juntar-se aos pais em França. Esta foi a justificação apresentada. Depois de uma conversa “pedagógica”, ética, mas frontal foi-lhe dito, nesse mesmo momento, que o António não tinha condições de passar, uma vez que os resultados obtidos durante o ano não correspondiam a uma avaliação séria e responsável. A pretensão do tio estava, por isso, em causa. E como o aluno tinha onze anos a caminho de doze era melhor esperar mais um ano para consolidar melhor as aprendizagens não conseguidas. Este foi o conselho dado. Mas não era isto que o tio pretendia. Longe de pensar no desenvolvimento seguinte. Sou importunado com uma proposta pouco comum na área da Educação. Apontou-me de mão aberta “uma prenda, pelo volume, recheada em forma de papel timbrado”. Rapidamente recusei tal “oferta” e admoestei o tio pelo gesto que teve, dizendo-lhe que a Educação não se compra nem se vende, mas que se conquista com trabalho, dedicação e espírito de sacrifício.
4 - O exemplo de boas condutas deve partir da família, em primeiro lugar, e da Escola como modelo activo de vida e de socialização. De sentido de esforço e de entrega plena. De uma avaliação isenta e rigorosa. Fundamentalmente de Justiça. As sociedades evoluídas não se revêem em actos subterrâneos e nada dignos da condição de cidadãos livres e responsáveis.
Já na parte final da conversa, o tema em questão voltou a aflorar naturalmente pelo incómodo causado. E um pouco surpreendente, reparo que o tio, numa atitude de elevação de carácter, de respeito por si próprio e para refazer o erro cometido, pede desculpa pelo gesto praticado naquele fim de tarde na minha casa.
Mais vale tarde do que nunca. É esta reflexão e esta humildade em reconhecer os erros que fazem falta a este país. Há tantos políticos e gestores públicos que, pelas suas condutas dúbias e carregadas de histórias mal contadas e mal encenadas têm que pedir desculpa aos portugueses. O país, pela certa, ganharia com isso. Teria outra dinâmica, outra verdade e, claro, outro futuro.