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O Concílio de Niceia com inspiração

No seu discurso de apresentação aos cardeais, na Sala Sistina, o Papa Leão XIV afirmou que o Papa deve ser “alguém capaz de guardar o rico património da fé cristã (...) e de olhar para longe, para ir ao encontro das interrogações, das inquietações e dos desafios de hoje”. Esta afirmação encerra uma grande consistência teológica. Muitos desejarão que se concentre apenas nas questões novas, a que importa responder com inteligência, iluminada pelo Espírito Santo. No entanto, há algo prévio e essencial que deve acompanhar sempre o ministério petrino, fazendo com que a Igreja, fiel à sua missão, continue a trilhar o mesmo caminho. O património doutrinal deverá ser sempre objeto de grande fidelidade, por muito que isso possa custar.

É, por isso, importante recordar o exemplo do Concílio de Niceia. A mensagem de Jesus foi sendo anunciada a todos os povos, com ousadia e coragem, apesar das perseguições severas. Nem todos os imperadores e governadores foram benignos. A Igreja foi perseguida desde os tempos de Nero (62 d.C.) e só deixou de o ser com o imperador Constantino, que proclamou a liberdade religiosa através do Édito de Milão, em 313. Pouco tempo depois, a religião cristã viria a tornar-se a religião oficial do Império, com o Édito de Tessalónica, promulgado por Teodósio em 380.

Antes de Constantino, o cristianismo teve de se confrontar com religiões e culturas muito diversas. Após a sua ascensão, surgia uma nova realidade histórica: a fé cristã tornava-se o fermento de um mundo novo. Era necessário explicitar, de forma clara, o núcleo essencial da fé, tornando-o referência comum e inequívoca. Assim, o imperador Constantino convocou o Concílio de Niceia, conseguindo reunir cerca de 300 bispos, vindos de todo o Império Romano. O objetivo era clarificar a fé da Igreja e enfrentar as heresias que iam surgindo em resposta às difíceis questões colocadas à inteligência humana. O resultado deste trabalho colegial e verdadeiramente sinodal, como hoje diríamos, foi a formulação do Símbolo de Niceia, que viria a ser completado pelo Concílio de Constantinopla (381), com pequenas adições, igualmente consideradas artigos de fé.

Com este concílio, nascia um tempo novo, radicalmente distinto do anterior. A Igreja, agora liberta da perseguição, enfrentava novos desafios, difíceis de explicar com recursos meramente humanos. O Papa Leão XIV sente que é seu dever olhar para as questões novas — algumas já conhecidas e outras que ainda hão de surgir, especialmente com a revolução tecnológica em curso. Portanto, a Igreja tem de estar presente neste processo. Não pode resignar-se a assistir de fora. Contudo, essa presença deve ser fundamentada em certezas, e nunca assente em concessões ou recuos. A Igreja não se pode envergonhar nem esconder diante de pensamentos e realidades diferentes.

Não foi por acaso que o Papa Francisco, na Bula de proclamação do Ano Santo, dedicado à esperança, solicitou atenção especial à celebração dos 1700 anos do Concílio de Niceia. Não se tratou de um mero enriquecimento simbólico do texto: havia – e há – uma profunda convicção por detrás dessa escolha. Embora a data já tenha passado, a mensagem papal deve permanecer como referência essencial. O Papa escreveu: “O Concílio de Niceia é um marco miliário na história da Igreja. O aniversário da sua realização convida os cristãos a unirem-se no louvor e agradecimento à Santíssima Trindade, em particular a Jesus Cristo, ‘consubstancial ao Pai’, que nos revelou o mistério do amor. Niceia constitui também um convite a todas as Igrejas e comunidades eclesiais para que avancem rumo à unidade visível, não se cansando de procurar formas apropriadas de corresponder plenamente à oração de Jesus: ‘Que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em nós, e o mundo creia que Tu me enviaste’ (Jo 17,21), (Bula de proclamação do Ano Santo, n.º 17).

Fico por aqui nesta reflexão. Voltarei ao assunto para nos consciencializarmos da urgência de conciliar permanentemente a esperança com a fé. São virtudes que, juntamente com a caridade, sustentam a teologia cristã. Contudo, em tempos em que se apela fortemente à vivência da esperança, não podemos ignorar a centralidade da fé. Só unidos na mesma fé, como ousou o Concílio de Niceia, estaremos verdadeiramente preparados para, com esperança, enfrentarmos os novos desafios e problemas que já se colocam à Igreja e que, certamente, se tornarão ainda mais complexos. 

Sem uma fé devidamente aprofundada e conhecida, a esperança corre o risco de se tornar uma utopia, e o mundo permanecerá por evangelizar.

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

14 junho 2025