Nos últimos tempos, foram muitas as expectativas em torno do Papa que orientaria os destinos da Igreja nestes tempos de complexidade. Surgiram inúmeros comentários e, inevitavelmente, continuarão a emergir diversas interpretações. Todavia, pessoalmente, gostaria de me situar numa atitude distinta. Não ignoro que o caminho de renovação eclesial, tal como apontado pelo Papa Francisco, continuará. Também ele será um firme defensor de uma Igreja sinodal. Refiro-o sumariamente, mas, assim o creio, a Igreja não voltará atrás.
Neste contexto, gostaria de convidar à reflexão sobre as primeiras palavras do Documento Final da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Aí se afirma, com clareza linear, que “cada novo passo na vida da Igreja é um regresso à fonte, uma experiência renovada do encontro com o Ressuscitado que os discípulos experimentaram no Cenáculo, na noite de Páscoa” (n.º 1). Ora, a Igreja necessita de se convencer, interiormente, de duas atitudes que considero essenciais. Efetivamente, vivemos um tempo que exige um novo passo, e todos os novos passos — como a própria história da Igreja confirma — acontecem no encontro com o Ressuscitado. Mais do que nunca, será necessário permitir que a ideia de um novo passo a dar penetre na autoconsciência da Igreja. Esta está situada no tempo, e é o próprio tempo que determina o ritmo do que deve ser e de como deve agir. Em nenhum momento se deve afastar do Fundador; contudo, a partir do encontro com Ele, torna-se imperioso que esse novo passo aconteça, sem atitudes nostálgicas ou inovações desprovidas de conteúdo. Volto a insistir: mais do que nunca, a Igreja deve dar um “novo passo”, sob pena de se alhear da história.
Entretanto, este Papa escolheu o nome de Leão XIV. Desconheço, naturalmente, as suas motivações e não me proponho analisar o pontificado do Papa que o antecedeu com o mesmo nome. Habitualmente, o nome escolhido traz sempre uma mensagem, seja pela memória que evoca, seja pela novidade que pretende inaugurar. Neste sentido, vejo o nome de Leão como algo inspirador para as realidades novas que estão a surgir. Recorde-se que Leão XIII publicou a primeira encíclica verdadeiramente social, a que deu o nome Rerum Novarum. Naquela época, surgia com força o mundo operário. Hoje em dia, vivemos uma mundividência muito mais ampla e complexa, ainda não suficientemente compreendida nem assimilada. Por isso, é a estas novas realidades que a Igreja deverá dirigir o seu olhar — sem medo nem complexos. A sua doutrina social continua a ser inovadora, mas, sobretudo, inspiradora de comportamentos que nem sempre se deseja assumir.
Acresce que este novo passo, que o Sínodo deseja continuar a dar, e no qual, estou convicto, este novo Papa se empenhará, deverá nascer do carisma que marca a sua vida. Sabemos que era agostiniano. Desconheço o lema que escolheu para o seu serviço papal; sei que fez referência a uma das frases mais emblemáticas de Santo Agostinho: “Antes de mais sou cristão convosco e só depois bispo para vós.” Assim sendo, o novo passo, capaz de responder aos desafios do presente, encontra aqui a sua origem: ser, acima de tudo, cristão na fidelidade ao Evangelho. A partir daí, tudo o mais acontecerá como um milagre permanente. Na verdade, não possuímos outras armas nem outros códigos inspiradores.
Recordo ainda uma experiência pessoal aquando do juramento dos cardeais. Inicialmente, procurava reconhecer os rostos dos conhecidos. Passados poucos segundos, concentrei-me num gesto comum a todos: o de colocarem a mão sobre os Evangelhos. Tive a coragem de permanecer até ao fim, repetindo a mim mesmo que o mais importante era a fidelidade àquelas verdades antigas contidas na Boa Nova, para que delas brotassem comportamentos novos. E tudo se transformou num momento de oração. Rezei para que esse gesto se apresentasse como um sinal eloquente de uma Palavra eterna, e para que, na minha vida, caminhasse sempre segundo esse único novo passo: a fidelidade exclusiva ao Evangelho, onde se encontram os caminhos e as respostas para tantas questões emergentes. O fermento terá de ser o mesmo, no entanto, o modo de o introduzir na massa terá necessariamente de ser diferente.
Rezo para que este “novo passo”, tal como aconteceu noutros momentos de crise na história da Igreja, volte hoje a ser a primeira e única preocupação: ser cristãos em fidelidade. A missão, essa, acontecerá como consequência.