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Uma madrugada libertadora

“Se em Moçambique o poder colonial cair, é provável que o governo de minoria branca na Rodésia caia. E se a minoria branca perder o poder na Rodésia é possível que o governo de minoria branca na África do Sul também caia”. Assim, mais ou menos nestas palavras, num dos dias imediatos à revolução, viria a revelar-se certeira esta espécie de profecia para o tempo próximo, lida pelo jornalista português Joaquim Letria aos microfones da BBC, em Londres, que eu então escutava pela primeira vez, rodeado por conterrâneos mais velhos, que ainda acreditavam mais na informação relativa a Portugal construída a partir da inequivocamente livre Inglaterra. Por cá, em Portugal, a liberdade dava os primeiros passos, resistiria depois ao PREC e ao cerco da Constituinte (1975), para volvidos dois anos se corporizar numa Constituição cuja matriz ainda hoje prevalece.

Como nação de vetustos pergaminhos, Portugal fora já atravessado por revoluções várias, algumas convulsivas (a liberal, no século XIX, a Republicana de 1910) sem que das mesmas resultasse uma retração do território pátrio, como cedo se percebeu que Abril imporia. Na sequência do comunicado do MFA (Movimento das Forças Armadas) de 25 de abril, rapidamente os três “D” da revolução (descolonizar, democratizar, desenvolver), seriam alcandorados a objetivos maiores para o tempo novo então prometido. 

A descolonização foi consideravelmente rápida, mas traumática, originando o retorno ao Portugal da Europa de cerca de um milhão de portugueses (brancos, quase todos), nascidos ou emigrados nos territórios do “ultramar”. Angola e depois Moçambique passariam de uma guerrilha independentista para cenários de dilacerantes e prolongadas guerra civis. Numa Europa já pós-colonial, Portugal corria atrasado na História, num processo imparável. 

A Revolução, que projetou Portugal no radar informativo internacional, serviu de exemplo, de semente. Em julho de 1974, a Grécia retomará o caminho para a democracia e em 1975, após a morte de Franco, será a vez de Espanha. Lá longe, o Brasil redescobrirá a liberdade em 1985, no mesmo ano em que a perestroika e a glasnost de Gorbachev começavam a incendiar o fim do comunismo na URSS, que se desmoronará, na Europa de Leste e noutras geografias.

A liberdade, a democracia e o capitalismo liberal ostentavam então ares de triunfo, cores de sedução. Francis Fukuyama ousou mesmo escrever O Fim da História e o Último Homem, para ilustrar as novas auroras da liberdade. Fukuyama, que admitia alguma possibilidade de se enganar, errou, porém, nesta sua profecia. O robustecimento eleitoral de partidos extremistas, o autoritarismo na governação, têm crescido em tempos recentes. Os EUA empalidecem a sua aura de defensores da liberdade e de terra de oportunidades, deslizando para uma governação trumpiana contagiada por interesses oligárquicos e indiferente ao designado Mundo Ocidental que desde há décadas lideravam. 

E o balanço social e económico da nossa revolução? O país mudou muito, inevitavelmente. Cinquenta e um anos é muito tempo. Já não temos analfabetos, quase todos temos carro, o telefone e o computador generalizaram-se, construímos milhares de quilómetros de autoestradas e muitas centenas de milhares de casas, criamos o SNS. As mulheres tornaram-se cidadãs plenas. 

Hoje, somos mais ricos, mas, lamentavelmente, entretanto proliferam novas ilhas de pobreza social e, sobretudo, habitacional – em grande parte constituídas por imigrantes, mas não só. O “D” (desenvolvimento) da Revolução de Abril revela-se incompleto, periclitante. Então (1974) como hoje, permanecemos como um dos países mais pobres da Europa, e o mais atrasado a Ocidente deste continente. Contaminada pelo desgaste nas redes sociais e pelo menor brilho da liberdade no ambiente internacional, a nossa democracia também já esteve mais segura. Todavia, a ancoragem das democracias depende da atração que projetam nos corações dos cidadãos, assim como da qualidade e probidade dos governos. Entretanto, todos nós podemos intentar prestar o melhor contributo. Longa vida para a liberdade!

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

25 abril 2025