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Um estilo parlamentar camiliano…

Pessoas sem vícios(ou defeitos) têm poucas virtudes…

Camilo

Quando se esperava a celebração do bicentenário do nascimento (16.03) de Camilo Castelo Branco (1825-1890), em Seide, V.N.Famalicão, aconteceu antes o inédito e inqualificável, histriónico inquérito inquisitorial no nosso Parlamento ao Primeiro Ministro. 

Neste debate mais polémico, ou jogo de meninos privilegiados num jardim de crianças irresponsáveis, escandalizado com o que vi e ouvi, habituado a outras vozes em países mais civilizados, associei mesmo a Camilo muitas dessas discussões e altercações acesas. E lembrei mesmo algumas das suas obras: A Queda dum Anjo (1866), Os Mistérios de Fafe (1868) contos como o Eusébio Macário e a Corja (1848), sem esquecer as lutas de Simão e Tadeu no Amor de Perdição (1862),cujos enredos, protagonistas, espaço e cenas nos fornecem os avatares, donaire, informantes e catálises de uma assembleia enraivecida, com ódio de bem e mal, aos olhos dos portugueses.

No meio de fortúnio e infortúnio, que bem se assemelham ao “penitente” e malogrado Camilo, há uma luta titânica de lirismo e desespero na cegueira que o levou ao suicÍdio em Seide. Aliás, depois de uma vida tresmalhada, de romantismo precoce (casado aos 16 anos com uma jovem de 14), na Igreja de Ribeira de Pena, infelicidade que o levaria a novo casamento e, mais tarde em amores adúlteros com Ana Plácido, de quem teve dois filhos, tendo de se refugiar da prisão na Casa do Ermo, Fafe, propriedade dos Vieiras de Castro.

De facto, nada mais semelhante na rudeza e contenda asquerosa de dois personagens, na Assembleia da República, que se debateram pela arrogância, sanha por falta de princípios éticos ou morais, que se expressam em muitos dos personagens camilianos, para não falar de outros como o Zé Telhado, que nos roubam e levaram para eleições antecipadas – num país cada vez mais pobre –, que precisa de estabilidade e do dinheiro para reformas, saúde, educação e defesa etc mas se diverte aos papéis nas urnas, procurando heróis embalsamados ou segredos de Pandora. 

Até a Mariana, que podia fornecer um pouco de sensibilidade e calma no meio da contenda, não ressuscitou na aura angelical de Inês Sousa Real… Mais pareceu uma luta de galos ou galgos a procura de um osso, o Calisto Elói da novela, ou o morgado de Fafe, que, antes de cair da sua condição rural e angelical, cai na sua avidez de ambição e na crueldade dos ares viciosos lisboetas, depois de serem eleitos deputados como heróis e vilões truculentos. 

Será este o símbolo do Portugal antigo (e puro) esquecido, transportado para os ares modernos da democracia, como arena, ávidos e frustrados com pundonores agravados de rurais, ou fidalgos que se defrontam? É verdade. Um espetáculo triste, olhos nos olhos, que nos envergonha a todos nesta “bota quase rota” da democracia…

Despertem os eleitores e exijam que a despesa das eleições para um destes heróis camilianos vencedor seja deduzida das subvenções aos partidos políticos, após o resultado eleitoral. Já basta de brincadeira de cowboys e múltiplo trágico inferno eleitoral. Não precisamos de habitações para muitos, melhor saúde para todos os doentes e acolhimento de imigrantes? Até quando?...

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Rosas de Assis

1 abril 2025