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Recordações inesquecíveis: a minha inspecção

Na minha juventude, vivi com certo receio e incerteza, uma situação que toda a gente da minha idade encarava com muitas dúvidas e sempre com algum temor: ser chamado para a tropa. 

Recordo a imensa satisfação quando, ao ser submetido à inspecção militar, o veredicto que me deram foi, como se dizia então, ficar “Livre”. Ou seja, não teria de fazer a tropa, que nos preenchia bastante tempo numa situação que, certamente, se cumpria, sem discutir, por dever de cidadania. 

O meu contentamento foi certamente bem vivido, porque logo a seguir a saírem os resultados de todos os jovens que, comigo, foram inspecionados, tomei um bom pequeno almoço num café da zona. Recordo o desapontamento de um meu companheiro de infância, que, como eu, ficou “livre” contra a sua vontade, pois queria ficar “apurado”, como então se dizia a respeito do serviço militar.

Quando me submeti à inspecção, não supunha que obteria o resultado que me deixou tão feliz. Não por ter horror a ”fazer a tropa”, mas por não padecer então (eu teria 18 ou 19 anos) de qualquer maleita que me impedisse de ter uma vida normal. Pelos vistos, a minha magreza levou a que uma certa medida relacional (“Índice de Pignet”) que tem a ver – suponho – com o peso e altura duma pessoa e também com outras realidades que não sei concretizar, orientou a decisão a meu respeito. Ficar “Livre”!

Já passou muito tempo, mas não esqueço a surpresa e a alegria de meus progenitores quando lhes comuniquei que não teria de ir para a “Tropa”. Minha mãe, como sempre fazia, rezou, dando acção de graças pelo acontecimento e o mesmo fez meu pai, que, pelo telefone, não deixou de manifestar o seu júbilo. Um velho amigo comentou-me na altura: “Ès um grande sortalhão!”.

Esta última frase tão objectiva, certamente que foi dita sem o pressentimento de alguma situação mais complexa, que, no caso de eu ficar “apurado”, podia transtornar ou, pelo menos, criar problemas complicados à vida estudantil e de trabalho. Devo confessar que, então, não pensava nem previa que, aproximadamente uns trinta e poucos anos mais tarde, fosse ordenado sacerdote.

Mas voltemos à questão da minha inspecção. Esta foi, tanto quanto me parece, a última de uma série de anos, em que, com alguma fortuna, se conseguia ficar livre. Lembro, a propósito, que um militar – não sei se tinha algum posto que desconheço ou se tratava dum mero “soldado raso” – ao entrar na zona em que todos os rapazes, em bicha, aguardavam o seu exame, passou por mim e, olhando-me de soslaio, comentou para um companheiro com quem seguia: “Este vai ficar livre”. E acertou. Aliás, não fui caso único, como frizei atrás.

Alguns meses depois do que acabo de lembrar, começaram as guerras independentistas nas nossas antigas colónias. A primeira foi em Angola. Pouco tempo depois, estes conflitos activaram-se na Guiné Bissau e em Moçambique. E o resultado das inspeções dos jovens ao serviço militar tornou-se muito mais severo. Vi colegas e amigos, que, com problemas físicos e de saúde muito complexos, ficarem “apurados”. Nesta ordem de ideias, sempre relembro a expressão que citei: “És um grande sortalhão!”

P. Rui Rosas da Silva

P. Rui Rosas da Silva

25 março 2025