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Primeiro ensinar, depois treinar…

Nesta longa carreira de treinador de voleibol fui, muitas vezes, confrontado com algumas limitações que surgem do dia-a-dia e dos hábitos das atletas. Alguns atletas seniores querem o estrelato, bons contratos, mas depois, na hora de dar mais, não o fazem. Os hábitos de treino, desde tenra idade, é um fator determinante para o sucesso na carreira e capacidade de rendimento. Falta de aplicação no treino, falta de concentração na tarefa, menosprezo pela intervenção técnica correta, falta de empenhamento na hora da repetição, são aspetos que são, muitas vezes, comuns, mas que não trazem evolução e longevidade na carreira desportiva. Repito vezes sem fim: O treino torna permanente, não torna perfeito. O que quer dizer que devemos treinar muitas vezes e bem. Desta forma, é importante que os atletas percebam o contexto do jogo, entendam a forma de executar, e depois deverá empenhar-se para que a repetição o conduza às soluções necessárias em cada situação do jogo. Aquilo que se chama o “automatismo consciente” é um fator de elevada importância na prestação desportiva. 

Obviamente que não podemos só “culpar” os atletas, mas os pais e os treinadores são fundamentais para os fazer entender o processo. Ou seja, outro aspeto que me leva a crer que limita muito o desenvolvimento desportivo e emocional do atleta é a “desculpa” dos testes. Todos sabemos que a pressão na escola é elevada, mas alimentar o comportamento, de que “tenho um teste… vou faltar ao treino”, conduz indubitavelmente à estagnação. Este comportamento, tantas vezes, a coberto dos seus progenitores, leva o atleta a não entender a importância do treino, e com isto a criar uma limitação significativa ao seu desenvolvimento. A aquisição das técnicas, dos comportamentos táticos, é estruturalmente ligada à repetição, ao hábito de querer executar bem, e aos padrões da acumulação (sentida e refletida). Poderá o leitor dizer, então se ensinarmos um atleta um determinado gesto e ele o repete vezes sem conta vai tornar-se um craque. E eu diria, Não! Não podemos esquecer que as técnicas desportivas são respostas motoras a situações especificas, com a alteração das suas adversidades, a execução eficaz depende das bases e dos hábitos motores adquiridos ao longo de todo o percurso desportivo.

Se o atleta quer ser competente no processo desportivo que abraçou, tem que perceber que o acumulado de treinos, de repetições, de situações problemas ajustados e diferenciados, o entendimento do processo, do jogo e o empenhamento máximo em todas as situações, são fatores que podem influenciar positivamente a sua evolução. 

Assim, da próxima vez, que o atleta pensar “vou faltar ao treino…porque…”, deverá ser questionado onde ele quer chegar (?), porque essa condição, na realidade, vai-lhe ser “fatal” para o futuro!... Já agora, bons treinos!

Carlos Dias

Carlos Dias

21 março 2025