Não há liberdade na pobreza ou na carência. Este juízo que facilmente é acolhido no plano individual é igualmente válido no plano das nações. E no plano nacional, nos tempos que correm, a Ucrânia sustenta, inequívoca e lamentavelmente, esta asserção.
Qual grande pirata moderno, os EUA, sob a batuta do impiedoso e destituído de ideais Donald Trump, preparam-se para impor à Ucrânia um acordo sobre as agora famosas “terras raras” que, tudo indica, resvalará para a exação, para a extorsão deste martirizado país. Quando altos responsáveis políticos americanos asseveraram dias atrás que a relutante Ucrânia assinaria mesmo um acordo que asseguraria 500.000 milhões de dólares em “terras raras” aos EUA (porventura, agora algo menos) estavam certamente a pensar na capacidade chantageadora de que o seu país dispunha. Para lá da abrupta interrupção do fluxo de armamento americano, aos ucranianos foi certamente vincado que as fulcrais ajudas americanas na designada guerra eletrónica poderiam ser interrompidas (desligando a informação por satélite), dificultando muito à Ucrânia os seus ataques e, sobretudo, o abate dos mísseis ou drones bomba que os russos lhes enviam, às dezenas ou centenas, diariamente.
A grandeza imperial da Roma antiga foi marcada pela sucessiva incorporação de novos territórios, que, uma vez subjugados, alimentavam as necessidades (alimentares e outras) do centro do império, na Península Itálica. Um pouco à imagem da Roma antiga, a atual América trumpiana parece querer continuar a crescer pilhando recursos alheios e intentando anexar territórios com interesse estratégico (o Canadá e a Gronelândia têm sido insidiosamente assediados pela verve megalómana de Trump).
Historicamente, a sustentação da grandeza imperial exige a capacidade de intimidar os adversários do próprio império ou dos seus aliados. Tudo é diferente com a nova América de Trump. Impetuoso, egocêntrico, mas desconhecedor da História e porventura mal aconselhado, o novo presidente dos EUA desdenha ou despreza velhos aliados (Europa e NATO), chegando mesmo a ameaçá-los, e propõe-se impor agressivamente os interesses do seu país (e os seus, na qualidade de empresário, como sucede com as mirabolantes propostas para criar resorts numa Gaza sem palestinianos) um pouco por todo o lado, enquanto se enamora de um histórico adversário, a Rússia.
Que de eleições nacionais, num qualquer país, possam resultar alterações significativas na política interna, nada que espante. Que das mesmas resulte alguma reconfiguração das prioridades na política internacional da nação também não é inusual. Porém, não há muito registo histórico de tamanha reviravolta no posicionamento internacional de um país como resultado de eleições internas. Não se pode dizer, como já aqui lembrei, que Trump não avisara. De facto, prometera grandes mudanças, mas nas lideranças políticas dos aliados mais próximos dos EUA certamente que ninguém antecipou tamanho terramoto político. E Donald Trump bem que poderá permanecer oito anos na presidência do seu país, se, entretanto, não vier a ser vítima de incontornável senescência. Mas de tanto querer tornar a “América grande outra vez” (MAGA), muito provavelmente Donald Trump acabará, a prazo, por minguar a relevância da América no mundo. Desconfiados ou atemorizados perante a imprevisibilidade e a arrogância americanas, a muitos países ou blocos, como o europeu, não restará outra saída que não a de procurar acomodar-se com parceiros mais fiáveis.
Por cá, a Europa, da UE ao Reino Unido, está igualmente acossada. Perante a potencial ameaça russa (nunca certamente ao ponto de intentar conquistar territorialmente toda a Europa, mas plausível no condicionamento ou ataque às partes mais a leste da UE), esta Europa tem mesmo de incrementar as suas capacidades de defesa, tem de aumentar o bolo orçamental destinado para as despesas militares e, eventualmente, até reconfigurar o modelo de incorporação militar.
E, queira-se ou não, a realocação de mais verbas orçamentais para a defesa haverá de significar o corte de verbas noutras áreas, por agora tidas por intocáveis. A solução do recurso ao endividamento (se relevante) redundará em austeridade acrescida no futuro.
Tempos difíceis e desafiantes os que agora vivemos.