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Apanhados 47

Quando há cerca de 6/7 décadas cheguei a Braga para prosseguir estudos após a conclusão do ensino primário na minha aldeia natal, no concelho de Guimarães, encontrei uma cidade muito diferente da cidade em que hoje vivemos; todavia, para quem vinha de uma aldeia muito rural e, obviamente, pouco desenvolvida embora não muito distante, apenas quatro quilómetros da cidade de Guimarães, a surpresa e o deslumbramento foram grandes.

Braga, nesse tempo, tinha marcas acentuadas de provinciana, maneirinha, caseirismo, coscuvilhice e modestamente cosmopolita e globalizada; e a sua vida diária, económica, social e cultural desenvolvia-se, sobretudo, nos largos, ruas e praças centrais por onde todo o trânsito de residentes, visitantes e rodoviário se desenrolava.

Por exemplo, a rua do Souto, a Arcada, a Avenida Central, o Largo Carlos Amarante, o Campo da Vinha e a avenida Marechal Gomes da Costa até ao edifício dos Correios, eram o miolo central, o casco urbano por onde fluía a vida comercial, social e viária; e para quem não sabe, toda esta área era invadida por pessoas, automóveis, transportes públicos e de carga e, até, por carroças e carros de bois, quer entrando, quer saindo da urbe.

Hoje, a nossa cidade vai perdendo ainda o pouco que já lhe resta do urbanismo serôdio de antigamente, cada vez mais crescendo e se desenvolvendo pelos subúrbios; e, então, a invasão que tem sofrido com a constante chegada de turistas, imigrantes e novos residentes tem quebrado a sua ancestral fisionomia de provincianismo, maneirismo e ruralismo.

E, naturalmente, este caudal de gente nova põe nas suas ruas centrais um fervilhar diário e constante de intensa vida social, onde o linguajar estrangeiro é uma óbvia marca de abertura ao progresso e ao cosmopolitismo; e, assim, a animação é intensa e globalizada, bem como a troca de culturas e de miscigenação que consigo arrastam permanente estado de curiosidade e vida nova.

Todavia, nem tudo são rosas e benfeitorias; e por isso, uma realidade me entristece: o uso de estrangeirismos na identificação de lojas, de restaurantes e de anúncios de qualquer jaez, retirando-lhe o caráter que sempre teve de cidade bem portuguesa; e quando deambulo por largos, praças e ruas ou visito centros comerciais, este fenómeno torna-se alarmante, quando são escolhidas palavras estrangeiras para denominarem os estabelecimentos comerciais e industriais e, até, os profissionais de culinária dela fazem abusado uso para citações públicas de alimentos e confeção de ementas e pratos.

Ora, sendo a nossa Língua a quinta Língua mais falada no mundo, atualmente cerca de 290 milhões de pessoas a falam, atrás do mandarim, do espanhol, do inglês e do hindi, é tempo de tudo fazermos para a defender na sua pureza, originalidade e vernaculidade; e isto nem sempre acontece como nos casos acima referidos e mais grave ainda quando em areópagos internacionais os nossos representantes a substituem, normalmente, pela língua inglesa para discursarem, apresentarem ou defenderem trabalhos de investigação ou fazerem conferências científicas.

Por isso a quem de direito se pede, para não dizer se exige, que nestas situações e circunstâncias e noutras mais exijam o uso em primeiro lugar da nossa Língua e os estrangeirismos em segundo ou terceiro lugar ou, pura e simplesmente, se proíbam; porque deixar que esta relativização e desuso da nossa Língua traduz, à priori, uma evidente desconsideração e desmazelo que em nada abona em defesa da cultura e idiossincrasia nacionais.

E, pelo contrário, pode bem passar pela afirmação de uma óbvia falta de cultura, de cidadania e de nacionalismo que certas correntes e movimentos políticos apregoam e defendem; depois, se já fomos em tempos áureos um povo de marinheiros e de heróis que levamos a nossa Língua e cultura aos quatro cantos do mundo, não queiramos agora dar a imagem de pública afirmação de desprezo e broeirice para com nossa amada

Língua, pois, como dizia o poeta, a minha Língua é a minha Pátria...

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

26 fevereiro 2025