Já li muitas vezes, nas caixas de comentários a textos sobre o Cristianismo em jornais online, que, desde a Sua fundação – com a vida, morte e ressurreição de Jesus –, o Cristianismo é algo tão mítico como as religiões mitológicas da antiguidade. Mais: que o Cristianismo está baseado, não em eventos reais e históricos – algo que é fácil de demonstrar como sendo errado –, antes numa espécie de recauchutagem de antigos mitos.
Um exemplo que, a respeito do que refiro no parágrafo anterior, é que a conceção de Jesus – fruto da ação divina em Maria e com o seu consentimento (mostrando a humildade dos dois intervenientes: o que pede e o que aceita) – é semelhante aos mitos em que deuses e semi-deuses resultavam de partenogénese (Hórus), encantamentos (Ares) ou da ação sexual luxuriosa de divindades com outras divindades (Atenas) ou mulheres virgens (Atimnio).
Ocorre, todavia, que no Novo Testamento não encontramos, a respeito da conceção de Jesus, qualquer autofecundação de um óvulo por Maria, nem tão pouco de uma “ação sexual luxuriosa” de Deus. Nada. É inegável que Jesus surge de uma intervenção da Trindade sobre Maria, sendo que graças a essa intervenção é comunicada, a um óvulo de Maria, tudo o necessário para esse óvulo ser fecundado e dele nascer um ser humano – mas sem qualquer ação sexual ou intervenção de um gâmeta masculino.
Outro exemplo é o da associação da morte e ressurreição de Jesus aos mitos de alguns deuses da fertilidade (Perséfone), em cujos relatos aqueles eram associados ao que ocorria na natureza. Nesta, após o momento da colheita, a terra fica como que inerte para renascer no ano seguinte. Acontece que, com estas divindades míticas, o processo era tido como lendário, cíclico e as mesmas regressavam iguais a este mundo. Já com Jesus, a Sua morte e ressurreição foram algo histórico, que ocorreu uma só vez e tendo Ele passado a transcender a realidade terrena (embora nela Se tenha manifestado durante 40 dias).
Por fim, há também o caso de se exportar termos (judaico-)cristãos para eventos próprios de cultos míticos. Por exemplo (e seguindo-se o silogismo falacioso de quem menciona este mito): 1) o Cristianismo primitivo tinha, e ainda tem, o importante gesto do Batismo para se poder entrar no Reino dos Céus (cf. Jo. 3,3-8); 2) no Mitraísmo as pessoas banhavam-se no sangue de touros para receberem a força cósmica (e aqui já temos uma diferença); 3) logo, no Mitraísmo havia a prática do Batismo (pese embora este termo nunca tenha sido usado nesta religião).
Duas observações finais. Primeiro: não há nenhum paralelismo sério entre o ocorrido com Jesus e o que foi dito, por vezes e depois do Cristianismo, nas religiões míticas. Se alguém vos disser o contrário, peçam para ver fontes (e não comentários ou citações) onde poderão estar esses eventuais paralelismos e vejam as imensas diferenças.
Segundo: Deus foi-Se dando a Si mesmo (e, assim, dando a Verdade e a verdade sobre a Verdade) a todos os seres humanos; daí que, o estranho não é que existam pontos de contacto entre as diversas culturas humanas e a história de amor entre Ele e Israel e a Igreja. O estranho era se esse contacto não ocorresse, sendo que Jesus veio, não eliminar, mas culminar o que de verdade havia nas intuições dessas culturas.