A queda do governo dos Países Baixos, a explosão social em França, o debate aceso em Espanha, Itália ou Grécia tem em comum uma não questão, que os extremismos têm alimentado como um problema grave: a política europeia de portas abertas para refugiados e imigrantes. A Purga tanto encena a questão como um problema social grave, como um ataque à preservação da identidade dos povos e pior que isso, um ataque ao seu bem-estar. Esta visão, cheia de contradições e palco, simultaneamente, de posições extremadas sobre o asilo de milhões de pessoas tende a agravar-se como se a Europa, a debater-se com o problema do “Inverno demográfico”, não tivesse necessidade de encarar esta situação com serenidade e oportunidade para dar resposta, como é sua obrigação internacional, à fuga de milhões de pessoas da guerra e da miséria, criando condições à sua inclusão e posterior inserção social e económica, desde logo, no mercado de trabalho. Por cá, não obstante alguns maus exemplos de racismo, perseguição e discriminação e falta de respostas mais rápidas (ex. exploração de mão de obra fragilizada nos campos do Alentejo ou de centenas de timorenses alvo de criminosos), as políticas sociais locais e governamentais, têm impedido que este movimento migratório se torne um empecilho remetido para a periferia política das nossas preocupações. Devemos, por isso, encarar com naturalidade a abertura que o país sempre mostrou, quer aos refugiados, quer aqueles que escolhem o nosso país para viver e aqui desenvolver o seu projeto de vida. Somos contra todas as contradições que esta questão encerra, um bom exemplo de como se deve trabalhar, ainda que com todos os defeitos que podemos apontar às políticas públicas. Ao contrário de Portugal, que tem sabido gerir o problema das quotas de refugiados e de imigrantes, os Países Baixos não conseguiram resolver as suas contradições em torno das quotas de asilo e imigração, considerada um atentado aos direitos das famílias, e com isso abriu-se uma crise política. Mark Rutte não convenceu os seus parceiros de coligação e caiu. Em causa está a proposta de limitar a reunião de 200 famílias por mês e com espera de dois anos até entrar nos Países Baixos. Tal não aconteceu, para já, em França, onde o problema é estrutural, mas tem alimentado os extremismos. O país, que se tornou uma referência ao longo de décadas em matéria de acolhimento, foi remetendo, de forma decadente, a questão para debaixo do tapete e com isso alimentou o extremismo, o racismo pondo em causa, simultaneamente, a coesão social que foi sempre um pilar de referência das políticas públicas francesas. A ascensão de partidos extremistas ao poder é por isso “natural”. Em Itália, já se percebeu que está em marcha uma purga e em Espanha, com eleições à porta, corremos o risco de ver o extremismo a ascender ao poder com as questões do asilo e da imigração, a ocuparem parte do debate político. Os esforços da Comissão Europeia para gerir este problema global não são de hoje, mas tendem a perder força e a tornarem-se paliativos face à “emergência política” de acautelar os equilíbrios nas negociações entre os Estados. As soluções tendem a ser inócuas, invasivas, pouco consistentes e alvo de fake news e de uma “verdade alternativa”, construída perante a desinformação e a incapacidade dos governos de encontrarem modelos de gestão que não ignorem as dificuldades económicas e a falta de perspetiva de mutos cidadãos que se degradou ao longo da última década. Não sabemos, por ora, se se atingiu o auge com a guerra e os milhões de refugiados ucranianos, espalhados pelo continente, mas o que sabemos é que a Europa tem a absoluta necessidade de encarar a globalização dos povos com a mesma naturalidade, objetividade e ponderação que se exige para todas as políticas estruturantes no espaço comum. Se nada fizermos para mudar de políticas, seremos mais cedo, do que se espera, o alvo contagiante da inação, fazendo perigar os pilares da Democracia. No meio de tanta selvajaria política, guerra e violência gratuita, há sempre uma história feliz, neste caso, a de um casal de jovens sírios, afastados pela guerra no seu país, ela veio para Portugal, ele foi para Alepo. Nunca desistiu de a procurar e acabou por identificar o seu paradeiro no nosso país. A história, que me foi contada pelos próprios, aconteceu em Braga onde voltaram a encontrar-se, com todo o mérito para a delegação da Cruz Vermelha que permitiu este reencontro. É assim Portugal.