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Vencimentos e pensões

As notícias de capa de revista em grande destaque, provocam sempre como uma onda de choque em quem as lê. Foi o caso recente de uma revista que publicou o título "Os maiores salários em Portugal".

Na verdade, não estamos a falar de valores inferiores a 10 mil Euros/mês, mas na maioria dos casos referidos, de algumas dezenas ou mesmo centenas de milhares de Euros. Os comentários na opinião pública, nas ruas e cafés ou mesmo nas conversas informais entre amigos, foram muitos, sendo que a maioria entendia que ninguém devia ganhar mais que o Presidente da República.

Sabemos que a questão não é tão simples de resolver como alguns sugerem, que temos vencimentos ainda muito baixos e pensões de miséria, sendo notícia o aumento da pobreza nas últimas décadas, agora agravada com as subidas nos preços de quase tudo, nomeadamente nos géneros e bens essenciais às famílias.

Compreende-se alguma indignação ou mesmo revolta de quem leu a notícia e comparou com a conjuntura económica existente.

A questão é moralmente censurável, por muito que se diga que para manter bons quadros no país, temos de lhes pagar muito bem. A questão parece ser se um pequeno e pobre país, onde milhões vivem na pobreza e a classe média perdeu poder de compra nas últimas décadas, pode ou deve permitir estas enormes desigualdades sociais?

Por outro lado, estamos a falar possivelmente de umas centenas de cidadãos com esses rendimentos mensais num universo de milhões de cidadãos. Em democracia e liberdade, o Estado obedece a um conjunto de princípios e regras, respeitando a vontade dos cidadãos e os contratos existentes entre eles.

Podemos lamentar que a classe média, os pensionistas e trabalhadores em geral tenham rendimentos de trabalho ou pensões reduzidos, mas nada mais que isso. Coisa diferente é quando o Estado na administração pública desenvolve políticas de desigualdade criando injustiças sociais e pondo em causa a própria pirâmide social, com o desaparecimento da classe média a curto prazo.

Era impensável, anos atrás, alguém ganhar milhares de Euros de diferença acima da classe média, onde se praticavam vencimentos de mil ou mesmo dois mil euros, porém o comboio da Europa circulou a alta velocidade e permitiu que os cidadãos passassem a viajar em classes e carruagens diferentes, da mesma forma que manteve a maioria afastada dessa realidade.

Continuamos a falar em sustentabilidade da Segurança Social, em trabalho precário e por vezes mal pago, da mesma forma que temos trabalhadores com diferentes horários de trabalho, resultante do poder reivindicativo de cada organização sindical, ao mesmo tempo que o Estado se questiona sobre o valor das pensões aos idosos, mesmo quando a inflação se aproxima dos dois dígitos. Mas parece evidente que, contra tudo isto, pouco podemos fazer, temos de viver na esperança de ter melhores orçamentos de Estado e uma economia mais próspera.


Autor: J. Carlos Queiroz
DM

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21 outubro 2022