Li, algures, que uma certa vez um avô resolveu convidar o seu netinho para um passeio pela mata da aldeia. Não cabendo de contente, impaciente e curioso, o rapaz pensou para consigo: – “o que será que o avô me quer mostrar?”. Manhã cedo, lá se introduziram na mata. Mas ao chegarem a uma clareira o avô sugeriu-lhe que fizessem uma pausa. E, após algum silêncio, perguntou-lhe:
– “Para além dos pássaros, do vento e murmurar das folhas, o que ouves mais?”. – O rapaz apurou o ouvido e, depois de alguns segundos, disse: – “estou a ouvir uma carroça”. – “É isso mesmo. Uma carroça, vazia” – acrescentou. – “Mas como é que o avô sabe que está vazia, se não a vemos?” — “Sei, porque quanto mais vazia a carroça está mais barulho faz!”. “É por isso que quando as pessoas falam muito e sem razão, o que resulta das suas palavras é o vazio” – atirou o avô.
Ora, há dois políticos bracarenses, um deles do presente executivo municipal e o outro do anterior, a quem deveria chegar idêntico convite, a fim de retirarem a lição daquele avô ao neto. Pois quanto mais ruído fazem em redor daquilo que um – enquanto vereador em exercício –, ainda, não cumpriu; e do que o outro – quando era poder – não fez –, quem sai a perder é Braga e as suas gentes. Uma vez que não é com discursos ocos de razão que farão sair a obra, em questão, do papel.
É que se foi graças à promessa eleitoral das Sete Fontes que a força política coligada conseguiu conquistar a gestão da Câmara Municipal de Braga – na qual constava dar saída a esse projeto – que faria daquele sítio um ‘Monumental Ecoparque’ –, afinal, passados 9 anos, o que hoje temos é o que sempre lá tivemos. Daí, não serem deveras justificativas, a meu ver, as desculpas dadas pelo elemento em funções sobre o seu incumprimento.
Agora, se os roteiros da nossa Augusta cidade incluíssem, já, o usufruto por parte dos cidadãos da área desse complexo hídrico, tecer loas verbais ou escritas não só não seriam demais, como até se justificava a “cotovelada” desse vereador ao elemento da oposição em retribuição à que dele, anteriormente, havia recebido.
É claro que esta “picardia” em nada abona, também, a favor daquele que fez parte da nomenclatura do anterior executivo. Uma vez que se recuarmos no tempo e olharmos para a atual situação daquele espaço, é fácil concluirmos que em 37 anos muito pouco dele foi acautelado. Tendo sido dada, nessa altura, primazia à especulação imobiliária em detrimento da salvaguarda de terrenos para áreas verdes e desafogo às Sete Fontes.
Ademais, continua a ser notória a pressão demonstrada para a implantação de edifícios de 10, ou mais andares, na sua zona envolvente. Isto é: se uns urbanizaram até as nesgas mais recônditas da cidade, em vez de tratarem do assunto, os de agora seguem-lhes as pisadas. Fazendo pairar, nesta romana cidade, idêntica despromoção do antigo, ao alargarem algum do ‘parolismo’ em voga a outras zonas citadinas.
Com efeito, vai atravessando a cidade dos Arcebispos uma espécie de carroça ruidosa – porque vazia de arrojo e vontade – que em nada lhe acrescenta em termos de harmonização. Isto, graças aos novos conceitos viários que obscurecem o legado do passado, deixando para trás as velhinhas fontes. Pelo que salutar seria algum silêncio e escutarem a voz da consciência, que as autárquicas ainda vêm longe.
Entretanto, vai sendo a reboque da mobilidade e do ambiente que, em Braga, se enfia tudo nas zonas pedonais: peões, bicicletas, segways skates e patins. Enfim, uma miscelânea. Em que, para tal, se vai recorrendo à adulteração iniciada na gestão anterior de traçados viários históricos em benefício dos carros. Antevendo-se que, daqui a algum tempo, o alcatrão venha a ser o rei em todas as artérias da cidade. Isto, enquanto as malogradas Sete Fontes jazem inertes na pasta dos compromissos adiados.
Por isso, caros senhores, evitem o acessório, foquem-se no essencial e ponham Braga à frente dos vossos interesses, sejam eles quais forem.
Autor: Narciso Mendes