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Silêncio, que se vai cantar a criatividade

Decorreu até ontem, na Universidade Católica, em Braga, a Semana da Criatividade, promovida no quadro da Transform4Europe, uma rede dedicada à cooperação e à inovação no ensino e na investigação, que congrega universidades de dez países europeus e uma parceira ucraniana. Da inteligência artificial à resolução de conflitos, passando pela sustentabilidade e pela educação, discutiram-se experiências e esboçaram-se estratégias em torno de uma disposição que cada vez mais se invoca e menos se fomenta. Que uma instituição académica sinta necessidade de se interrogar sobre este tema é sinal de uma saudável inquietação. E não sem razão! Aos docentes universitários pede-se que sejam criativos e inovadores em sala de aula, mas as carreiras obedecem a uma lógica de produção científica semi-industrial, avaliada pelo número de artigos e citações e pelos índices de impacto. Resmas de textos com o mesmo formato, citando os mesmos autores, partilhando as mesmas grelhas de leitura, engordam currículos, quando deviam ajudar a compreender o mundo e a melhorar as nossas vidas.

Como estranhar, então, que os trabalhos dos nossos alunos sejam tão uniformizados? Que os clássicos erros ortográficos e de sintaxe, a pontuação caprichosa, as gralhas, as repetições obstinadas, as frases sem verbo ou as referências bibliográficas mal formatadas tenham partido para parte incerta não deveria ser motivo de saudade. Quem gastou rios de tinta a riscar “houveram”, “à muito tempo”, “interviu” ou “tipo” não vai, decerto, acender velas pela sua partida. Só que, com estas aberrações linguísticas, foi-se também a singularidade de quem as vertia no teclado. É certo que o plágio e outras artimanhas não esperaram pela inteligência artificial para assentarem arraiais na academia. Mas, entre os parágrafos alheios, ainda se vislumbrava alguém. Hoje, impera a frieza plástica de textos ditados pelos algoritmos. Ora, é no erro corrigido que se aprende. É tentando, falhando e voltando a tentar que crescemos e descobrimos quem somos. A descoberta, pessoal ou científica, nunca nasce de um caminho sem tropeços. A criatividade deita raízes nos rascunhos.

A universidade não é uma torre de marfim. Dentro e fora dos seus muros, o cenário é, por vezes, desolador. A língua padronizou-se: o novo colega é objeto de um onboarding, as reuniões atulham-se de feedbacks, deadlines, brainstormings e coffee breaks, e as conversas, de lugares-comuns, como “sair da zona de conforto”, “fazer a diferença” ou “pensar fora da caixa”. Em cidades recauchutadas a papel químico, os cafés instagramáveis decoram-se com os mesmos tijolos à vista, plantas penduradas, lâmpadas de filamento e letreiros luminosos com frases inspiradoras, enquanto as lojas se convertem em barber shop, concept store, wine bar ou nail bar. Nos centros históricos, as mesmas cadeias internacionais acotovelam-se com as lojas de lembranças fabricadas em série e as montras de pastéis de nata, entre outras iguarias “típicas”, para turistas consumirem. Muito mais se poderia dizer desta era padronizada, pouco convidativa à diferença, dos emblemas friamente estilizados às fotografias de casamento com as mesmas poses, das playlists automatizadas às trends que milhões reproduzem à risca.

Entre as reflexões que se ouviram na Semana da Criatividade, partilho apenas algumas. Numa mesa-redonda realizada no espaço Muzeu, a reitora da Universidade Católica, Isabel Capeloa Gil, lembrou que a universidade remete para o studium, no duplo sentido de lugar de estudo e de estúdio, enquanto oficina de experimentação em que o erro faz parte do processo de aprendizagem. Por seu turno, o músico Pedro Abrunhosa recordou-nos que, por vezes, se aprende mais sobre as relações de classe em Dostoiévski do que num relatório da União Europeia. Quanto à inteligência artificial, o mais provável é que não seja ela a acabar com o mundo, mas a pressa com que lhe entregamos aquilo que nos torna humanos: o tempo de pensar e o direito de duvidar. Sacrificamos a criatividade no altar da produtividade.

Escrevo esta crónica num aeroporto, espaço padronizado por excelência. E, no entanto, é nas minhas viagens de avião, sem acesso à internet, que leio com mais atenção, reflito com mais calma e me ocorrem as melhores ideias. Nada se cria com pressa, nem no meio do ruído. A criatividade precisa de tempo perdido, de hesitação fecunda, de solidão contemplativa e de silêncio habitado. E, como no fado, antes do canto, alguém tem de pedir silêncio.


 

O autor recorre à inteligência artificial como ferramenta de revisão e de apoio à escrita. As ideias e as escolhas são da sua exclusiva responsabilidade.

Manuel Antunes da Cunha

Manuel Antunes da Cunha

17 outubro 2026