"Vai, pensamento, sobre asas douradas, / Vai, pousa sobre as colinas e sobre os montes, / Onde exalam perfumes tépidos e suaves, / os ares doces da terra natal! (…)" – é letra de música que trauteamos com frequência, executamos no teclado ou nas cordas dos nossos instrumentos musicais.
1. Na base, está o Salmo 137 da Bíblia “Super Flumina Babylonis” (“Junto aos rios de Babilónia”), cuja acção narra a história do rei Nabucodonosor da Babilónia, quando os hebreus ficaram cativos (586 a.C., por mais de 40 anos). Nabucco é a ópera em 4 actos de Giuseppe Verdi, composta durante a ocupação austríaca do norte da Itália. O coro dos escravos hebreus (3º acto), “Va, pensiero, sull'ali dorate” (estreado, em 1842, no ‘Teatro La Scala’ de Milão), de clamor revolucionário, tornou-se o hino do nacionalismo italiano.
O Salmo já inspirou, entre tantos, o inolvidável poema de Camões, "Sôbolos rios que vão / por Babilónia, me achei, / Onde sentado chorei / as lembranças de Sião / e quanto nela passei... (…)", expressando desde os estados de alma do Poeta ao infortúnio que decaiu sobre Portugal, que, de Sião que fora, Babilónia se tornou. Precisamente em “Super Flumina Babylonis” (1966), Jorge de Sena exprime a sua relação/identificação com Camões, que atinge o seu acme expressivo, quando escreve: "Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos, / mágoas, humilhações, tristes surpresas; e foi / traído, e foi roubado, / e foi privado em extremo da justiça justa (…)" – primeira estrofe do soneto –, unindo-se, qual jogo de espelhos, a si mesmo – o incompreendido na sua pátria – com a sorte do Poeta. Ainda, em “Sôbolos rios que vão”, o romance de António Lobo Antunes, que assim recorda o poema de Camões – também personagem do seu irónico romance, As Naus –, aí contrapõe os pares ‘saúde/doença’, ‘infância/maturidade’, etc., ao jogo camoniano ‘ali/aqui’, ‘cantar/chorar’, ‘tristeza/contentamento’, etc.
2. Em quarentena, recordamo-nos da homenagem que os cantores do Coral Internacional da Ópera em Roma gravaram, cada um de sua casa, dedicado aos profissionais de saúde e trabalhadores da linha da frente, executando e cantando Va pensiero, instando também a que cerremos fileiras na árdua luta contra o pernicioso vírus. Nós, maioritariamente em quarentena, não podemos esquecer muitos em cuidados intensivos (por vários meses), e tantos que morreram... Se não temos completa liberdade de movimentos, o pensamento vai…, flui, junta-se ao sol que se estende sobre a Natureza, guiados pelo génio de Verdi. E tal como no Salmo, entre sofrimento e morte, há a convocação para a vida, como clamava outrora o profeta Jeremias. Provavelmente, nunca a mensagem do famoso coro Nabucco de Verdi teve significado tão profundo, fonte de tanto sentimento e emoção. Na situação de confinamento forçado a que estamos sujeitos, Va pensiero...
Todos somos vulneráveis, mas somo-lo desigualmente, e nem todos o somos às mesmas coisas. A pandemia deixou isto muito claro: o vírus foi um espelho, mostrando em que sociedade vivemos. Marie Garrau, filósofa da Sorbonne, que publicou “Políticas da Vulnerabilidade” (2018), disse-o recentemente: "o vírus operou uma universalização brutal da nossa vulnerabilidade".
3. Do acima exposto, não posso de modo nenhum concordar com o conteúdo do livro Este vírus que nos enlouquece (na verdade só concordo com o título), do escritor Bernard-Henry Lévy, quando apregoa que "é preciso acabar com o discurso do medo" (fala até do “super-medo”), não discernindo entre ‘medo irracional’ (isso é o ‘pânico’, e é mau) e os efeitos de racionalização do medo: é irracional e estúpido não atender às consequências nefastas da epidemia, para nós e os outros.
Estoutro tópico do autor é ainda mais grave: "um dos principais objectivos da democracia é reduzir o distanciamento social, o desnível entre classes, o afastamento entre governantes e governados", e estamos a fazer o contrário! O escritor francês faria bem em atentar que nunca os cidadãos presenciaram em directo o exercício dos “freios e contrapesos” (checks and balances) ao poder político, em democracia, com as autorizações parlamentares do “estado de emergência”, aliás periódicas e transitórias. Já Montesquieu dizia: "Se no interior de um Estado não ouvires o som de nenhum conflito, podes estar certo que a liberdade não está aí". É o momento, ou nunca, de recordar que as democracias têm exigências éticas; foi do escamoteamento inicial do problema – próprio dum regime despótico – que resultou a propagação mundial do vírus. A covid-19 mostra à saciedade a diferença entre ditadura e democracia, entre totalitarismo e o respeito pelos valores da liberdade e justiça.
Despontando agora uma nova esperança com as vacinas – um feito extraordinário da ciência –, com maioria de razão devemos seguir os conselhos dos especialistas, rejeitando sem hesitação as posições irracionais dos hedonistas no nosso tempo – os não habituados a sacrifícios em favor do bem comum.
O autor não segue o denominado “acordo ortográfico”
Autor: Acílio Estanqueiro Rocha