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Por Entre Linhas e Ideias

O que revela a inveja sobre aquilo que somos? Pensei, para a crónica de hoje, num conceito que mexe profundamente com as pessoas e com a nossa condição humana e sobre o qual, curiosamente, não abundam textos. É um sentimento que ninguém gosta de reconhecer, muito menos de assumir, e talvez por isso se esconda tão bem na nossa vida quotidiana.

Caros leitores, dizemos muitas vezes que admiramos e que ficamos felizes pelos outros, e muitas vezes é verdade. Mas nem sempre é assim. Há momentos em que o sucesso alheio nos incomoda e a alegria do outro nos custa, mesmo que não o admitamos. É nesses instantes que a inveja começa a insinuar-se, discreta, mas capaz de alterar a forma como olhamos para os outros e para nós próprios.

Na verdade, se pensarmos com algum cuidado, percebemos que não temos inveja da humanidade em geral, mas de pessoas concretas, daqueles que estão perto de nós, que fazem o mesmo caminho e que, de algum modo, parecem ocupar o lugar onde gostaríamos de estar. Como já notava Aristóteles, invejamos sobretudo os nossos semelhantes, porque é na proximidade que nasce a comparação e é dessa comparação que emerge essa tensão silenciosa entre aquilo que somos e aquilo que poderíamos ser.

Lembro-me, a este propósito, de situações simples que todos reconhecemos. Basta pensar em vizinhos que se zangam por causa de um caminho, de um rego de água ou de um pequeno pedaço de terra. À primeira vista, parecem conflitos menores, mas, quando olhamos com mais atenção, percebemos que muitas vezes não está apenas em causa o objeto da disputa, mas antes uma comparação persistente, um incómodo por o outro ter aquilo que nós não temos. E, de forma ainda mais intensa, vemos isto dentro das próprias famílias, onde relações que deveriam ser de proximidade e apoio acabam, não raras vezes, marcadas por rivalidades, zangas prolongadas e silêncios difíceis de explicar, que começam quando se passa a olhar para o que o outro tem ou não tem, para aquilo que alcançou ou não alcançou, abrindo espaço a comparações que facilmente se transformam em inveja.

Também a tradição antiga percebeu bem a força desta emoção. No episódio de Caim e Abel, a inveja conduz a um gesto extremo, quando Caim, incapaz de lidar com a preferência divina pelo irmão, transforma o outro num rival a eliminar. Mais do que uma narrativa religiosa, trata-se de uma imagem poderosa sobre aquilo a que a inveja pode conduzir quando não é devidamente refletida.

Caros amigos, é por isso que importa perceber a diferença entre procurar melhorar e desejar que o outro falhe, porque, como lembra Espinosa, filósofo do séc. XVII com ligação a Portugal, “a inveja é o ódio na medida em que dispõe o homem a entristecer-se com o bem do outro e a alegrar-se com o seu mal”, e é precisamente nesta inversão que a inveja revela a sua dimensão ética.

Ora, o tempo em que vivemos parece favorecer este sentimento, já que as redes sociais expõem e amplificam esta realidade, mostrando sobretudo as viagens, os sucessos e os momentos felizes, deixando quase sempre de fora o esforço e a falha, o que torna a comparação constante. Como sublinha o pensador francês René Girard, o nosso desejo é mimético, desejamos aquilo que vemos os outros desejar ou possuir, e é nessa dinâmica que a inveja encontra um terreno fértil para crescer.

Ainda assim, talvez possamos olhar para a inveja de forma menos imediata, pois, se a reconhecermos, pode funcionar como um sinal do que nos falta ou do que verdadeiramente valorizamos, podendo transformar-se num impulso para crescer. Mas, se a negarmos ou disfarçarmos, tende a ganhar força e a afastar-nos dos outros.

Estimados leitores, talvez o verdadeiro desafio não seja negar a inveja, mas aprender a lidar com ela, começando pela forma como olhamos para os outros e pelo que sentimos sem o dizer, porque, no fundo, a inveja fala menos do outro e mais de nós.

Fica o convite para o nosso pensamento ao longo da semana:


 

- O que sentimos, no fundo, quando o outro tem aquilo que desejamos?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

6 maio 2026