Costa conseguiu convencer o eleitorado de que os verdadeiros e únicos culpados pela crise política que se instalou no país e que, de resto, originou o acto eleitoral que se realizou no domingo passado, foram o Bloco de Esquerda e a CDU. Pessoalmente, acho que foram injustos. No mínimo, não podemos descartar que o secretário-geral socialista também terá sido responsável pela quebra de confiança havida entre os parceiros que ajudaram a que, pela primeira vez, houvesse um primeiro-ministro que não era do partido que tinha ganho as eleições. O mesmo que, depois de derrubar muros antigos para construir as pontes necessárias a uma governação à esquerda, destruiu estas últimas para governar doutro jeito. Saberemos como o fará dentro de algum tempo.
Ao contrário de Costa, Rio não conseguiu construir um discurso suficientemente inflamado e emotivo, nem passar a ideia de que tinha um melhor modelo económico do que o anterior e agora próximo primeiro-ministro do governo do país. O povo já decidiu e os resultados indicam que o Partido Socialista ganhou as eleições legislativas com maioria absoluta, algo que foi pedido em modo chorado e dramático e que nenhuma sondagem previu nem era expectável ao próprio requerente e ao partido de que é responsável.
Mesmo que tenha sido o povo a decidir, como disse João Cotrim de Figueiredo, e eu concordo, foi “uma má noite para Portugal”. As consequências vamos percebê-las verdadeiramente mais tarde. Não interessa que o próprio secretário-geral socialista assegure agora que “uma maioria absoluta não é um poder absoluto, não é um governo sozinho, [que] é um governo para todos os portugueses”, porque isso vale pouco. Nem que Costa se tenha comprometido a ser ele mesmo “o primeiro garante”, prescindindo do primeiro argumento que apresentou, de que seria o Presidente da República a controlar eventuais ímpetos totalitários. Ora, se a arrogância existiu num tempo em que o Partido Socialista precisava de parceiros, com maior facilidade ela estará presente numa altura em que estes não são mais necessários. A arrogância vai sobrar, com toda a certeza. Até pode ser que nos primeiros tempos pareça que se mantém “aberto e activo o diálogo”, mas será sol de pouca dura, como tão bem diz o povo. A promessa de Costa de que pretende “reconciliar os portugueses com as maiorias absolutas” – mais uma que é preciso registar para o confrontar quando começar a meter o pé na argola –, foi verbo com que encheu o seu discurso de vitória e que será relativizado na primeira oportunidade que a construção gramatical não se coadunar com o interesse.
É verdade. A amplitude dos resultados dá até para que algum deputado socialista possa ter um rebate de consciência e decida tornar-se independente. O governo que sair da nova configuração da Assembleia da República terá a maior estabilidade que é possível ter. Isso mesmo. A maioria absoluta foi alcançada – e o nosso sistema eleitoral permite que não corresponda à maioria absoluta dos votos dos eleitores – e apenas um partido político, o Partido Socialista, assumirá toda a responsabilidade pela governação do país. A oposição, essa, não vai poder fazer valer os interesses de quem representa, apesar do número de cabeças corresponder a mais eleitores do que os dos representantes socialistas. Costa acabará, apesar disso, por não lhe passar cartão ou ainda que queira fazer jus ao que disse que faria, deixará passar a imagem de que terá em conta a opinião de quem representa mais de metade dos eleitores. Contudo, isso acontecerá tão só em questões de menos importância, como aquelas em que o Partido Socialista bateria o pé, só por teimosia, caso não tivesse a maioria que agora tem. O Partido Socialista e o Governo decidirão sem precisar de qualquer outro partido, exceptuando no interesse de uma eventual revisão da lei fundamental do país. Os portugueses vão ter um governo estável, mas vão ter que se preocupar com outras questões. Não se pense que saiu a sorte grande ao país.
Autor: Luís Martins