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“Um tesouro a descobrir”

Outubro é o mês do Rosário e, por isso, não poderia deixar de referir-me a esta oração, de que o Papa João Paulo II disse tratar-se de “um tesouro a descobrir” (O Rosário da Virgem Maria [RVM], nº 43). Não me move a intenção de fazer a história nem o estudo teológico ou pastoral de uma oração tão difundida e praticada na vida da Igreja. Pretendo apenas relevar a sua importância e apresentar a sua estrutura e sentido, para que se torne uma oração mais autêntica e proveitosa.

Foram muitos os Papas que deram uma particular atenção ao Rosário na vida da Igreja, em geral, e na dos cristãos, em particular. Fico-me por textos dos três últimos: “O Terço é a minha oração predileta. A todos exorto, cordialmente, que o rezem” (João Paulo II, Alocução do Angelus, 5 de novembro de 1978); “O Rosário, quando é rezado de modo autêntico, não mecânico nem superficial, mas profundo, de facto, dá paz e reconciliação. Contém em si o poder restabelecedor do santíssimo Nome de Jesus, invocado com fé e com amor no centro de cada Ave Maria” (Bento XVI, Introdução à Recitação do Terço, 3 de Maio de 2008); “O Terço é a oração que sempre acompanha a minha vida; é também a oração dos simples e dos santos... é a oração do meu coração” (Papa Francisco, Audiência Geral, 7 de outubro de 2016).

A oração do Rosário terá surgido pelo ano 800, à sombra dos mosteiros e conventos. A falta de formação e o analfabetismo do povo simples levou a que se propusesse este modo de rezar àqueles que não tinham acesso à leitura e meditação dos Salmos. Apostando em formas breves e no método da repetição, depressa se tornou o “breviário dos simples”. Aos 150 salmos do Saltério correspondem as 150 Ave Marias do Rosário, palavra que significa “coroa de rosas” e se fundamenta numa antiga tradição de que a Virgem revelara que, de cada vez que se reza uma Ave Maria, lhe é entregue uma rosa e, por cada Rosário, uma coroa de rosas. Sendo a rosa a rainha das flores, sugere-se então que o Rosário seja uma das mais importantes orações. Por se tratar de uma terça parte do Rosário, o conjunto de 50 Ave Marias assumiu o nome “Terço”.

Foi o Papa Pio V (1566-1572) quem deu ao Rosário o formato que hoje possui e foi S. Domingos de Gusmão (nasceu em Caleruega [Espanha], em 1170, e morreu em Bolonha [Itália], em 1221) quem se encarregou de o promover. Consta que, em 1214, a Virgem Maria lhe recomendou o Rosário como arma poderosa para a conversão dos hereges e pecadores. Os padres dominicanos, por ele fundados, encarregaram-se de difundir e promover a oração tão querida ao seu fundador.

Chama-se “mistério” a cada grupo de dez Ave Marias, porque, no início, se enuncia um dos acontecimentos da vida de Jesus Cristo, a quem aparece associada Maria, sua Mãe. A meditação passa pelos mistérios gozosos (segundas e sábados), dolorosos (terças e sextas), gloriosos (domingos e quartas) e luminosos (quintas). Estes últimos foram acrescentados pelo Papa João Paulo II, aquando do Ano do Rosário (cfr. RVM, nºs 19 e 21).

Em cada parte, o Pai Nosso “torna a meditação do mistério, mesmo quando é feita a sós, uma experiência eclesial” (João Paulo II, RVM, nº 32) e a Ave Maria, recordando as palavras do Anjo Gabriel e de Isabel, são o elemento “mais encorpado do Rosário e também o que faz dele uma oração mariana por excelência” (João Paulo II, RVM, nº 33). O Glória ao Pai, no fim, situa o Rosário no contexto mais amplo da Trindade.

O Rosário é a oração não litúrgica que mais se difundiu entre os cristãos. Para que não se torne rotineira, “uma oração tão fácil e ao mesmo tempo tão rica merece verdadeiramente ser descoberta de novo pela comunidade cristã” (João Paulo II, RVM, nº 43). É, de facto, “um tesouro a descobrir” e, tal como aconteceu no segundo milénio, não duvido de que continuará a nortear a piedade dos cristãos deste terceiro milénio.

*Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)


Autor: P. João Alberto Correia
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26 outubro 2020