Na primeira «mesa», o «pão da vida» oferece-se como «Palavra de Deus» que, no altar – a segunda mesa – se converte, por obra do Espírito Santo, em «Corpo de Cristo». E se é certo que o memorial de Cristo e o louvor trinitário constituem o coração e o cume da missa, a sua meta é a comunhão. (CF. Chauvet, p. 105)
Os três ritos principais: gesto da paz, fração do Pão e comunhão formam uma figura única, porque há uma relação estreita entre eles. E cada um forma parte dos outros dois. «E essa combinação conforma uma figura teológica e espiritual que manifesta a própria finalidade da Eucaristia». (Chauvet, p. 105)
Depois do Pai nosso, com a sua petição do ‘pão de cada dia’, encadeiam-se os 3 ritos: paz, fração do Pão e comunhão. E cada um destes três ritos possui uma dupla dimensão: vertical – que nos dirige a Cristo –, e horizontal – que nos dirige aos outros.
O gesto da paz dirige-nos horizontalmente para os irmãos e irmãs presentes, mas fá-lo verticalmente, em nome de Cristo: «A paz do Senhor esteja convosco. Saudai-vos fraternalmente». O que se tem de dar é a paz, e não simplesmente a amizade. Com efeito, posso realmente dar a paz de Cristo a uma pessoa que está ao meu lado, sem ter de lhe dar a minha amizade, quer porque, eventualmente, não a conheço, ou porque tenho até uma relação tensa com ela.
Chauvet adverte que o que devemos transmitir uns aos outros não é só um sinal de paz, mas, através do que é apenas um sinal, a própria paz de Cristo. Tem dúvidas, ainda, de que as pessoas entendam corretamente a relação entre os dois elementos: a paz, e não só a amizade; a paz de Cristo, e não apenas o seu signo ou sinal.
O rito da paz é o único rito de tipo horizontal que prevê a missa. Tudo o resto é de tipo vertical. Acha ainda lamentável que se considere opcional ou até se questione este rito. Há uma razão teológica a dar-lhe pertinência e consistência: não pode existir uma relação viva e fecunda com Cristo se não passar, também, pelo rosto do próximo.
Em causa, está, fundamentalmente, o cruzamento entre a relação fraterna horizontal que significa principalmente o gesto da paz, e a relação vertical com Cristo que significa o gesto da comunhão. Na comunhão, com efeito, não recebemos os outros, nem a Igreja, mas Cristo vivo, ressuscitado, marcado ainda pelas feridas da morte. Mas é absolutamente essencial que compreendamos bem que não podemos comungar de maneira fecunda o Corpo eucarístico de Cristo se não estivermos em comunhão com os nossos irmãos e irmãs, que são os membros do seu corpo eclesial, como quer justamente assinalar o gesto da paz.
São Paulo adverte na 1.ª Carta aos Coríntios, cap. 11, que os cristãos não podem participar fielmente na Ceia do Senhor se alguns comem em abundância e os outros passam fome, ou seja, se não vivem verdadeiramente como irmãos. Se não constituírem um corpo eclesial. Mas afirma a seguir: «O que come e bebe sem considerar que se trata do Corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação» (11, 29) Trata-se, sem dúvida, do Corpo eucarístico. A relação íntima entre corpo eclesial e corpo eucarístico está bem patente. E é isso que o gesto da paz, bem entendido, quer assinalar. A afirmação de Paulo em 1.ª Cor 10, 17 exprime isso mesmo: «Porque há um só pão, todos formamos um só Corpo, pois todos participamos do mesmo pão». Santo Agostinho diz isto de uma outra maneira: «sede o que vedes e recebei o que sois», (Chauvet, p. 110)
O autor que vimos seguindo e que exerceu como pároco muitos anos, não se conforma com a minimização do gesto da paz, pois ele indica precisamente a relação indissociável entre o horizontal e o vertical da Eucaristia. E muitos aduzem a escusa de que tal gesto perturba a intimidade da relação com Cristo, quando é precisamente essa relação intimista e individualista com Cristo o que a Eucaristia questiona.
É certo que, por falta de formação, a maioria dos fiéis entende o gesto de paz como um gesto de proximidade com os familiares ou amigos que tem ao lado e que escolhe quando toma assento na igreja. Nem faltam os que se deslocam dezenas de metros para ir dar um beijo ou um abraço aos pais, avós, etc. Não distinguem entre gesto de amizade e gesto de paz.
Durante a pandemia, seguindo algumas das eucaristias de Santa Marta, vi que o Papa Francisco saudava os presentes com uma inclinação de cabeça. O mesmo que o padre Chauvet diz que faz e fez como pároco, indo diante do altar e saudando a todos com esse gesto de acolhimento que a inclinação de cabeça tão bem pode traduzir. E isso permite estender a saudação, não apenas aos mais próximos fisicamente, mas, no caso, a toda a assembleia.
Urge valorizar e entender bem todo o significado e alcance do gesto/rito da paz. Só então pode ser vivido a sério em cada celebração, sem cair na rotina que tudo deteriora.