Porque é que precisamos de silêncio quando alguém que admiramos parte? Dou por mim a fazer esta pergunta à secretária, enquanto tento escrever e me chega a notícia da morte de Jorge Palma. Ainda há pouco tempo nos tinha deixado Luís Represas e somos agora surpreendidos pela partida de outra voz maior da música portuguesa. Fico por momentos em silêncio, sem saber bem o que dizer, enquanto recordo as canções que Jorge Palma nos deixou.
Caros leitores, vivemos rodeados de ruído e sentimos que temos de comentar tudo, mas, quando parte alguém cuja voz nos acompanhou durante tantos anos, talvez a melhor homenagem seja parar por momentos, ficar em silêncio e reconhecer o extraordinário legado que a sua voz, as suas letras e melodias deixam à cultura portuguesa.
O filósofo e médico Max Picard, no livro O Mundo do Silêncio, ajuda-nos a perceber que o silêncio não é simplesmente a ausência de sons, mas uma dimensão da vida que nos permite escutar com maior profundidade. É precisamente isso que sinto hoje, porque, ao recordar Jorge Palma, não preciso de procurar imediatamente uma canção para o ouvir. As suas melodias já vivem dentro de mim, tal como vivem dentro de tantos portugueses que cresceram, amaram e celebraram a vida ao som da sua música.
Quem não se recorda do extraordinário concerto de Jorge Palma no NOS Alive de 2023, com aquela maneira tão própria de se sentar ao piano, pegar na guitarra e deixar que as canções chegassem às pessoas sem grandes artifícios? Recordo esse encontro como recordo tantos outros momentos em que a sua música nos fez companhia, porque há artistas que não entram apenas nos nossos ouvidos, entram também na nossa história pessoal e ficam ligados a lugares, pessoas e acontecimentos que nunca mais esquecemos.
Talvez seja por isso que a morte de um músico nos comove de uma maneira particular. Sabemos que já não voltaremos a encontrá-lo num palco, mas também sabemos que, amanhã, poderemos voltar a ouvir a sua voz. O filósofo Henri Bergson, em Matéria e Memória, mostrou-nos como o passado continua presente na nossa experiência. Uma canção que ouvimos há trinta anos pode devolver-nos, num instante, o rosto de um amigo, uma viagem ou uma tarde que julgávamos esquecida, e é nesse reencontro que a música continua a acompanhar-nos.
Meus amigos leitores, Jorge Palma deixa-nos uma voz inconfundível e canções como «Frágil», «Encosta-te a Mim», «Deixa-me Rir» e «A Gente Vai Continuar», que hão de passar de geração em geração. A sua maneira simples e próxima de estar perante o público lembrava-nos que um artista não precisa de se colocar acima dos outros para lhes oferecer algo extraordinário. São músicos como Jorge Palma e Luís Represas que merecem um lugar no Olimpo da música portuguesa, porque a sua obra permanece quando as luzes do palco se apagam.
Afinal, como escreveu Simone Weil, «a atenção é a forma mais rara e mais pura da generosidade». Talvez a partida de quem gostamos nos ensine a praticá-la enquanto estamos juntos, reservando tempo para uma conversa, um abraço ou um gesto de amizade, sem deixarmos que o ruído dos dias nos afaste das pessoas que dão sentido à nossa vida.
Hoje, a minha homenagem a Jorge Palma não precisa de grandes discursos. Quero apenas escolher uma das suas canções, ouvi-la do princípio ao fim e deixar que, depois da última nota, o silêncio permaneça por instantes, não como sinal de esquecimento, mas como espaço de gratidão por tudo aquilo que a sua música nos ofereceu.
Caros leitores, pensem no seguinte:
“A morte pode calar uma voz, mas nunca conseguirá silenciar aquilo que essa voz deixou a cantar dentro de nós.”
“…sabemos que, amanhã, poderemos voltar a ouvir a sua voz.”