"Lideraremos não só pelo exemplo do nosso poder, mas pelo poder do nosso exemplo" – eis a frase do ‘discurso de vitória’ de Joe Biden que promete uma nova era nos Estados Unidos (EUA) e no mundo, quando, a partir de 20 Janeiro, for o 46.º Presidente dos EUA; com Kamala Harris – a 1.ª mulher vice-presidente –, ambos iniciam uma tarefa das mais complexas e momentosas, como ele proclamou: "É tempo da América unir-se. E curar-se".
1. Para enfrentar uma das suas primeiras prioridades – a epidemia de Covid-19 –, o Presidente, logo que eleito, vem construindo uma estratégia realista, iniciada com uma videoconferência com treze especialistas escolhidos para constituir ‘uma célula especial Covid-19’, atitude que contrasta com a do seu antecessor, que, além de denegrir cientistas e médicos, minimizava os riscos, alvitrando até intrujices (como injecções de lixívia, etc.). Outra grande prioridade é a da equidade racial, com um programa auspicioso, capaz de debelar grandes injustiças, acabando de vez com a artimanha trumpista, que a considerava "um problema inexistente". Outro sinal prometedor é que os EUA voltarão aos acordos climáticos de Paris, com um ambicioso plano de incremento das energias renováveis, que poderá significar um passo de gigante numa questão tão urgente.
Ainda candidato, Biden prometeu uma “cúpula das democracias” nos primeiros meses do seu mandato, o que é um volte-face na estratégia despótica montada nos últimos 4 anos. Os perigos são de tal monta que, como foi noticiado (para além do não noticiado), houve reforço do contingente militar e policial para mais de 20 mil, na tomada de posse de Joe e Kamala, dada a extensão e brutalidade do que estaria planeado (na capital federal e na maioria dos outros estados), que obrigou soldados a alojarem-se no Capitólio (o que não se via desde a Guerra Civil, 1861-65). Mais um mandato de Trump e seria simplesmente medonho o que aconteceria à democracia americana e, por arrasto, à mundial! Por isso, a vitória de Biden-Harris é um golpe contra os mini-Trumps que vagueiam pela Europa e pelo mundo, buscando a ruína da democracia e da União Europeia – o que de melhor se fez na história política da humanidade.
2. Acresce ainda que a administração Biden terminará com a hostilidade à União Europeia (UE), que aumenta há 4 anos. Desde logo, julgo que o impacto da sua vitória mudou os planos de Boris Johnson e do seu governo, que se apressaram em negociar mais com a UE desde esse momento, concluindo um acordo sobre o Brexit; ora antes, Londres ostentava uma postura de ruptura com Bruxelas, porque tinha o respaldo da Casa Branca.
De facto, o futuro inquilino da Casa Branca traz esperanças aos europeus, agora que é travada a demência devastadora de Trump. Doravante, creio que a política dos EUA com a UE será mais construtiva em todos os planos – político, económico, comercial, ecológico, segurança e defesa; mas os europeus não esperem um Biden totalmente aquiescente com a sua causa, nem o fim dos confrontos entre os interesses americanos e europeus. O mais importante é que os EUA voltaram "ao mesmo lado da história", para usar a frase de Josep Borrell – o Alto Representante da UE para Relações Exteriores e Política de Segurança.
3. Após o tempo em que as relações transatlânticas foram minadas por Trump, vêm aí anos de multilateralismo e de colaboração com as instituições internacionais, ao contrário da tonteria trumpista, que, à medida que as abandonava, deixava esse vazio ao dispor da China, que o ocupava sem hesitação, sem alaridos, mas de modo possante, rindo-se talvez de tamanha inépcia! Desde a retirada do acordo climático de Paris, a guerra comercial contra a União Europeia, a devastação da NATO, o abandono do tratado nuclear iraniano, a fúria desenfreada contra organizações mundiais (para as quais, em grande parte, os EUA muito contribuíram), até ao apoio – imagine-se! – de mobilização de grupos armados, foi uma política errática em crescendo, incorporando raiva sem projecto, em que a própria personagem, devorando a política, por esta foi devorado, cujo acme inconcebível foi o assalto ao Capitólio, a instituição-chave da democracia!
O presidente eleito declarou que o seu país “está de volta ao jogo”, não mais será “uma América só”, mas enveredará por uma diplomacia internacional construtiva. Ora Trump só teve sucesso em dividir e desorganizar ainda mais a América; no ‘twitter’, já fazia campanha há quatro anos, ocupado em favorecer os seus seguidores e denegrir os seus opositores, mentindo quase sempre. Dir-se-á, mentir faz parte da política: mentirosos o foram alguns dos seus antecessores, por ex., Nixon durante a guerra do Vietname, George W. Bush sobre as armas de destruição em massa no Iraque; todavia, Trump mentia de forma diferente: o mentiroso sabe que não está a dizer a verdade; mas, para Trump, e os populistas, a verdade não existe: ela é aquilo que ele diz crer num dado momento e que mudará no dia seguinte!
O autor não segue o denominado “acordo ortográfico”
Autor: Acílio Estanqueiro Rocha