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Ser cidadão

A rua não é o caixote do lixo doméstico, como parece convir a alguns. A rua é a sala de visitas de todos como se verifica no dia-a-dia. Ora, se assim fosse ou se assim nos comportássemos, a rua não tinha máscaras da pandemia aqui e acolá, não podia ter latas de refrigerantes por cantos e esquinas, embalagens de plástico ou de maços de cigarro que se podem pontapear. Tinha o aspeto da nossa sala de visitas, onde recebemos os amigos, com o devido asseio que marca o nosso grau de desenvolvimento social; acima de tudo o respeito que temos por quem connosco vem falar. Claro que já foi muito pior, claro que houve uma evolução para melhor, mas ainda não chega. É aqui que se insere a formação para a cidadania. Uns exigem que sejam as escolas a enformar cidadania nos mais jovens, outros opõem-se-lhe com a força que dimana da convicção social que por direito pertence à objeção de consciência. A escola deixou há muito de ter a valência formativa porque a isso se opuseram uns tantos que entendem que à escola compete ensinar e não tem o direito de se intrometer na formação individual. Passaram a escola a oficina onde se bate o ferro para fazer moldes que sirvam à sociedade. Outros pensam que as escolas deveriam substituir os pais na formação do indivíduo, uma vez que as famílias são cada vez menos estruturadas e cada vez tem menos tempo para estar com os filhos. A verdade é que a formação dos jovens faz-se por duas vias: exemplo e doutrinação. Aquela será o sinal mais estruturante e este o sinal mais teorizante. Uma coisa e outra, somadas e com objetivos comuns, formam o cidadão do futuro. Objetar contra a formação integral do indivíduo e deixá-lo ao sabor do livre arbítrio, isto é entrega-lo aos seus impulsos. Foi por vencer os seus impulsos que o homem se libertou da irracionalidade. Esta é a verdade da educação. Se a casa fosse escola de filhos, como já foi, a escola poderia ser o local do adestramento cognitivo; mas se a casa não obriga os filhos a serem respeitosos com toda a gente a começar pelos pais e outros familiares, se a casa não lhes inculca o dever de que o que é de todos é também um pouco deles, se não lhes ensina a encaixar na sociedade que o cerca e não o convence dos deveres para com os outros, então estamos a deixar crescer uma árvore que será rebelde porque nunca foi podada. Em outro lugar eu disse que dantes se ensinava para a obediência e agora que se está a ensinar para o personalismo, onde o relativismo anda à solta travestido de afirmação de personalidade. Não sei se a Educação para a Cidadania cobre o conceito de eu e os outros, mas é importante que o observe como prioritário, sob pena de julgar que está a educar para a cidadania quando está somente a criar uma mera disciplina curricular. Os temas merecem discussão alargada, devem ser debatidos por todos para que os excessos sejam limitados e seja encontrada a medida certa. Entendo que não se deve educar para a cidadania, deve-se viver em cidadania. A liberdade não se ensina, vive-se nela. E isto marca toda a diferença e define as fronteiras duma formação integral do indivíduo. Deixem ensinar os jovens a serem cidadãos, enquanto não vivermos em cidadania. Para tal é preciso que os pais, professores e sociedade em geral, não deixem de julgar todos aqueles que não cumpram as regras e os deveres de cidadão.


Autor: Paulo Fafe
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14 setembro 2020