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A Magnifica Humanitas na imprensa

 

 


 


 

Ninguém diria que uma encíclica papal se poderia apresentar como um tema jornalisticamente relevante. E, no entanto, na terça-feira, abundaram os jornais que, em muitos cantos do planeta, dedicaram à Magnifica Humanitas, a primeira encíclica do Papa Leão XIV, um espaço significativo nas primeiras páginas. As conhecidas proclamações sobre a irrelevância da voz da Igreja Católica perderam sentido.

“É impressionante que o Papa Leão XIV tenha continuado o testemunho de Francisco quanto a tirar o Vaticano de uma modorra de séculos”, escreveu o jornalista Pablo Ordaz no diário madrileno El País. A este jornal se deve um dos mais contundentes títulos sobre o documento apresentado na segunda-feira: “O Papa dita sentença contra o tecnofascismo”. O antetítulo também não é comedido: “Leão XIV alerta na sua primeira encíclica, com uma potente carga política, para os riscos da IA”.

Outro diário madrileno, o ABC, próximo da Igreja Católica, ignorou, algo estranhamente, a Magnifica Humanitas na primeira página, preferindo chamar a atenção para assuntos de política interna e para uma entrevista com um candidato à presidência de um clube de futebol. Mas a encíclica não é esquecida nas páginas interiores: duas delas são sobre o documento, uma sobre a sua recepção “com entusiasmo” no mundo tecnológico e religioso; outra, inteira, com um texto de opinião.

Há, além disso, meia página com um editorial: “A Igreja compreendeu que a IA não é apenas um assunto técnico, mas uma questão civilizacional. E Leão XIV assumiu o risco de nela intervir com ambição intelectual, consciência histórica e vontade de influência pública. O Papa propõe algo muito exigente: uma civilização tecnológica que não perca de vista a centralidade da pessoa. Em tempos de automatização acelerada e desorientação cultural, recordar que o ser humano possui uma dignidade irredutível não é apenas uma afirmação religiosa, mas também uma necessidade política e civilizacional”.

Na primeira página, o jornal catalão La Vanguardia dá um grande destaque à encíclica, apresentando uma grande fotografia de Leão XIV a assiná-la. O editorial também é sobre a Magnifica Humanitas, indicando que fornece “uma base para fundamentar um chamamento aos Estados para que intervenham, estabeleçam regras, regulem a tecnologia e evitem que aqueles que beneficiam directamente dela acabem decidindo sobre o destino colectivo e, de caminho, sobre a condição humana”.

A quantidade de editoriais dedicados à Magnifica Humanitas é elevada. No do diário francês Le Monde sublinha-se o apelo do Papa “a ‘desarmar’ a IA e a recolocar ‘o ser humano no centro’”, explicando que “desarmar” a IA “não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o humano”, para o que se impõe que as tecnologias fiquem submetidas ao ‘controlo público’” e respeitem o papel insubstituível da pessoa humana.

Magnifica Humanitas é sobre Inteligência Artificial e sobre o que em relação a ela se impõe fazer: permanecermos humanos para não corrermos o risco de voltar a ser escravos, poder-se-ia dizer, parafraseando o título de primeira página do diário La Stampa.

Não deixa de ser extraordinário que a generalidade da imprensa tenha prestado uma enorme atenção ao documento papal. Ela é justificada, designadamente, pelo que aí se reivindica. “Papa exige diretrizes rigorosas para IA”, lê-se na circunspecta primeira página do diário alemão FrankfurterAllgemeine Zeitung,

Os mais conhecidos jornais dos Estados Unidos da América, The New York Times e The Wahington Post, sublinham pontos fortes do documento em extensos textos publicados na primeira página.

Magnifica Humanitas também esteve nas primeiras páginas de múltiplos jornais da América Latina. O diário argentino Clarín, o brasileiro Folha de S. Paulo e o chileno El Mercurio são adequados exemplos.

Algumas menções a Magnifica Humanitas são deveras inesperadas. A revista Wired manifestou-se encantada, digamos assim, pela circunstância de o Papa ter citado o escritor John Ronald Reuel Tolkien. “Ninguém se surpreendeu quando o Papa Leão XIV citou santos conhecidos e anteriores pontífices”, escreveu Miles Klee, acrescentando que “o nome que imediatamente chamou a atenção de muitos leitores é sinónimo de literatura fantástica: J.R.R. Tolkien, o autor católico de O Senhor dos Anéis”.

A alusão a Tolkien serviu ao Papa para, através das palavras de uma personagem, descrever a responsabilidade individual: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar”.

Sobre a Magnifica Humanitas, ainda muito se dirá. Não falta matéria que o justifique.


 


 

PS: Uma versão mais extensa deste texto foi publicada no 7 Margens.

Eduardo Jorge Madureira Lopes

Eduardo Jorge Madureira Lopes

31 maio 2026