O padre Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia há mais 40 anos, desenvolveu a primeira pregação quaresmal ao Papa e à Cúria, em 26 de Fevereiro, fazendo uma introdução geral ao tempo quaresmal. Partiu das palavras de Marcos, 1, 15: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho».
A Bíblia fala de três tipos de conversão. A primeira é a que ressoa precisamente no princípio da pregação de Jesus: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho». Aqui, converter-se não significa voltar atrás, à antiga aliança e à observância da lei moisaica, mas dar um salto à frente e entrar no Reino, captar a salvação que chegou gratuitamente até nós, por iniciativa livre e soberana de Deus. Por isso, aqui 'convertei-vos e acreditai' não significam duas coisas diferentes e sucessivas, mas a mesma acção fundamental: 'convertei-vos, isto é, acreditai!'. E isto requer uma verdadeira conversão, uma mudança profunda na maneira de conceber as nossas relações com Deus. Exige passar de um Deus que pede, que manda, que ameaça, à descoberta de um Deus que vem com as mãos cheias para se nos dar totalmente. É a conversão da 'lei' para a 'graça', tão querida a São Paulo.
A segunda conversão é proposta em Mateus, 18, 3-4: «Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, não entrareis no reino dos céus». Aqui, a conversão significa uma inversão de marcha, um voltar atrás, a quando éramos crianças. É a conversão de quem já entrou no Reino, acreditou no Evangelho e se colocou humildemente ao serviço de Cristo. O foco não é posto em nós. Não se trata de saber quem é o primeiro. É preciso descentrar-se de si mesmo e centrar-se em Cristo. É regressar ao momento em que descobrimos que fomos amorosamente chamados e nos encontramos pessoalmente com Jesus, com o coração a transbordar de alegria e entusiasmo.
A terceira conversão é a conversão da mediocridade e da tibieza para a vida inebriante e fervorosa. É o que o Espírito pede à Igreja de Laodiceia: «Sê zelosa e converte-te', (Ap. 3, 15s). Acrescenta Paulo: «Não sejais preguiçosos em fazer o bem; deixai-vos inflamar pelo Espírito; entregai-vos ao serviço do Senhor! (Rm, 12, 11)».
Para a tibieza, podemos resvalar com a maior das facilidades, mas, dela, só poderemos sair se rezarmos para alcançar o fervor do Espírito, que nos é dado para conseguirmos mortificar-nos, e não tanto como recompensa das nossas mortificações. Este caminho, que vai do fervor à ascese e à prática das virtudes, foi o caminho que Jesus fez seguir aos seus apóstolos, após o Pentecostes. Aliás, enquanto não foram baptizados com o Espírito, não mostraram nada de novo, nobre, espiritual que fosse melhor que o antigo, diz Cabasillas, grande teólogo bizantino. Mas quando o baptismo do Espírito se derramou sobre eles, e o Paráclito irrompeu nas suas almas, então fizeram-se realmente novos e abraçaram uma nova vida, foram guia para os outros e arderam com a chama do amor de Cristo em si e nos demais.
Os padres da igreja chamam a esta conversão a da sobriedade para o inebriamento, tal como propõe Efésios 5, 18-19: «..enchei-vos do Espírito, conversando uns com os outros com salmos, hinos, cânticos inspirados, cantando e bendizendo o Senhor com todo o vosso coração, dando continuamente graças por tudo a Deus Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo». Este inebriamento não é provocado pelo vinho da videira, mas pelo 'vinho novo', espremido da verdadeira videira que é Cristo. Os apóstolos estavam ébrios, sim, mas dessa sóbria ebriedade que dá morte ao pecado e dá vida ao coração, dirá São Cirilo de Jerusalém.
Uma vida cristã cheia de esforços ascéticos e de mortificações, mas sem o toque vivificante do Espírito, parecer-se-á a uma Missa com muitas leituras, ritos e oferendas, mas sem a consagração das espécies pelo sacerdote. Tudo continuará a ser o que era antes: apenas pão e vinho. O mesmo pode acontecer com o cristão: jejuar, fazer vigílias, salmodiar, praticar todas as virtudes, mas sem se ter realizado, por graça, no altar do seu coração, a operação mística do Espírito. Sem ela, todo este processo ascético é incompleto e vão, porque não tem o júbilo do Espírito operando misticamente no coração. Foi o que São João XXIII propôs para o Vaticano II: 'um novo Pentecostes para a Igreja. O fruto mais importante é a descoberta do que significa ter 'uma relação pessoal com Jesus ressuscitado e vivo'.
Com uma fé cheia de verdadeira esperança, peçamos sempre: «Vinde, Espírito Santo / enchei o corações dos vossos fiéis/ e acendei neles o fogo do vosso amor!».
Como em Caná, que Maria interceda para que a água da nossa tibieza se transforme no vinho de um fervor e arrebatamento constantemente renovados. Então, a quaresma ganha nova dimensão, e a Páscoa será verdadeira e arrebatadora.
Autor: Carlos Nuno Vaz
Quaresma: ocasião para descobrir o que significa ter uma relação pessoal com Jesus ressuscitado e vivo
DM
6 março 2021