A seleção nacional de futebol feminino apurou-se e esteve presente, de forma inédita, na fase final do último europeu de futebol, e onde, teve uma participação muito meritória. Também recentemente, a equipa do SCBraga, sem derrotas na fase de grupos da Liga dos Campeões, conseguiu chegar aos 1/16 desta competição, sendo a segunda equipa portuguesa a conseguir este feito.
Há cerca de duas semanas, a nossa seleção fez dois jogos particulares com a sua congénere dos Estados Unidos, apenas a equipa campeã do Mundo, resultando desses encontros duas derrotas, por 0-4 em Filadélfia, e 0-3 em Minnesota. Por sua vez, o SCBraga na primeira mão da competição de clubes mais importante do “velho continente”, foi derrotado em sua casa pelo PGS, uma das melhores equipas da competição, por um esclarecedor 0-7.
Não se trata de resultados dececionantes, mas sim a constatação da realidade do desenvolvimento atual do futebol feminino em Portugal, quando comparado com as melhores práticas. Convém lembrar que estamos perante “um espaço”, em que apenas recentemente, com a atual configuração da FPF, se começou a dar a justa, lógica, e merecida importância.
Mas como crescer de forma progressiva e sustentada para estar perto das melhores e começar a ganhar-lhes? Para já, das nossas organizações de topo, apenas a FPF parece conscientemente preocupada com esta situação, mas não atingiremos resultados se todos os agentes desportivos e educativos, nomeadamente os que dependem do Governo, não estiverem alinhados, e se não houver um plano. A capacitação do talento, o qual muitas vezes vem da rua ou está na Escola, mesmo que detetado, ainda não tem o acolhimento desejado nos clubes à escala nacional para o potenciar e desenvolver.
A organização da Educação Física e do Desporto Escolar tem que contar com o Desporto Federado se quiser ter expressão e valorização social. O Projeto, a organização, o conhecimento, e os meios, passam a possibilitar resultados, e a qualidade a aparecer com naturalidade.
Acredito, que para nos diferenciarmos (todos os clubes e FPF), e nos afirmarmos em termos qualitativos e competitivos a nível internacional num espaço de 6 a 8 anos, deveríamos iniciar um modelo de desenvolvimento de jogadora diferente, um “seasons-in”, com futsal nos “meses de chuva e frio” e futebol nos “meses de sol e calor” (nomeadamente até às idades de 15/16 anos, noção a validar cientificamente). Poderíamos desta forma combater alguns pontos fracos e determinantes nos embates internacionais, fazendo crescer e melhorar as capacidades condicionais (físicas) e os aspetos técnicos e táticos nas duas vertentes.
As jogadoras de futsal começariam certamente a rematar com mais potência e ter maior capacidade de choque, e as jogadoras de futebol a ter maior capacidade de guardar a bola, de a trocar e de finalizar com sucesso.
Deveríamos pensar estrategicamente, caracterizar muito bem a situação, avaliar recursos, e avançar numa direção mais certeira, com todos os agentes. É certo que ainda vamos melhorar muito com o que se está a colocar no terreno, mas nos países de sucesso ninguém está parado, e atenção, que há muitos que ainda não começaram a andar. Para já é importante pensar estrategicamente.
Autor: Fernando Parente