Os acontecimentos da história da salvação foram lidos e relidos em perspetiva crente, dando origem às tradições orais que, durante muitos séculos, alimentaram a celebração da fé. A mensagem chegava aos seus destinatários por via oral e era assim que também eles a transmitiam. Sabemos, contudo, que, apesar de mais viva e expressiva, a oralidade é efémera, ao passo que a escrita tem a vantagem de ser mais durável e permanente, de conferir à mensagem mais fidelidade e fiabilidade e de lhe permitir uma leitura reiterada e pública. Por isso, os textos escritos tornaram-se essenciais e insubstituíveis na transmissão da revelação: resultam da fé e iluminam-na, “têm os valores imediatos que a fixação por escrito outorga à palavra oral, acima de tudo o da duração e permanência, salvando-a do efémero da locução” (Armindo Vaz, Palavra viva, Escritura poderosa, p. 34).
Sem excluir a possibilidade de pequenos escritos anteriores, podemos dizer que foi em meados do século I da era cristã, com as Cartas de Paulo, que começou a escrita por nós conhecida das, até então, tradições orais que serviam de suporte à transmissão da mensagem cristã. Na rápida difusão do cristianismo das origens, as vantagens da escrita fizeram com que não só nascessem os escritos do Novo Testamento (textos autógrafos), como também deles se fizessem inúmeras cópias (textos apógrafos).
Os textos originais e muitas das suas cópias perderam-se (os materiais são efémeros), mas, mesmo assim, chegaram até nós cerca de 5500 manuscritos antigos que contêm, em partes maiores ou menores, o texto grego do Novo Testamento. São os testemunhos diretos: papiros, códices e lecionários.
Os papiros surgiram entre os séculos II e VIII, são mais de uma centena, apresentam um tamanho variável e são o melhor e o mais antigo testemunho do texto do Novo Testamento. Procedem todos do Egito (o papiro como suporte de escrita é feito com a medula de uma espécie de junco que cresce nas margens do Nilo) e são citados com um P e um número em expoente. Os mais conhecidos são o P52, o mais antigo de todos (cerca do ano 125), que se conserva na John Rylands Library de Manchester; e o P75, conhecido como Papiro Bodmer (ano 175) que, em 2007, foi oferecido ao Papa Bento XVI e se conserva agora na Biblioteca Apostólica do Vaticano.
Os códices são feitos de pergaminho, couro de animal preparado para ser suporte de escrita e assim chamado porque esta técnica começou na cidade de Pérgamo. Os de letra maiúscula (unciais) são mais de 300 e os de letra minúscula quase 3000! Dos primeiros, destacamos apenas três: o Códice Sinaítico (S ou 01), descoberto na biblioteca do Mosteiro de Santa Catarina, no Sinai; o Códice Vaticano (B ou 03), o mais antigo manuscrito em pergaminho (começos do séc. IV), conservado na Biblioteca Apostólica do Vaticano; e o Códice Bezae (D ou 05) que, em 1581, foi oferecido à Universidade de Cambrige pelo sucessor de Calvino, Teodoro Beza.
Os lecionários são quase 2300 e apresentam um grande valor, pois atestam uma forma de texto muito antiga e cuidada. Não admira, pois trata-se dos textos que eram proclamados na liturgia, lugar por excelência da celebração e afirmação da fé.
Por último, são de referir os fragmentos de objetos de barro utilizados como material de escrita e os amuletos que apresentam pequenos textos do Novo Testamento. Uns e outros carecem de valor crítico, por falta de controlo do texto.
Os testemunhos indiretos são as antigas traduções da Escritura e as citações literais dos Padres da Igreja e dos escritores eclesiásticos. As primeiras possuem muito valor, dado que foram feitas a partir de manuscritos próximos do primeiro texto. As segundas também são preciosas e, além disso, são tantas que dão para reconstruir a quase totalidade do texto do Novo Testamento.
Estes testemunhos são estudados pela Crítica Textual, uma das áreas da exegese bíblica que, com base em regras próprias, se preocupa com encontrar a “lição original” e assim reconstituir aquele que teria sido o texto que foi escrito pelo(s) autor(es) sagrado(s). Trata-se de um trabalho muito técnico, mas, em última instância, o objetivo é pastoral e catequético: dizer melhor, alimentar e fortalecer a fé dos crentes.
Autor: P. João Alberto Correia
O texto do Novo Testamento
DM
21 fevereiro 2022