twitter

Neste tempo de inquietantes incertezas!

Com a chegada do outono, a lufa-lufa do quotidiano está de volta. O regresso ao trabalho e o início do ano escolar trouxeram de novo tarefas e canseiras redobradas. O movimento nas estradas e o bulício nas vilas e cidades aumentou exponencialmente, e nem a pandemia que se instalou entre nós veio alterar muito o panorama dos anos anteriores.

E ainda bem que assim acontece!

Apesar das restrições e dos constrangimentos que o maléfico vírus trouxe à vivência em sociedade, a vida não pode parar. Fala-se até insistentemente numa nova normalidade, já que ninguém, com razoável certeza, pode prever o fim da pandemia e não há outro caminho senão adaptarmo-nos a esta nova e estranha realidade.

Uma nova e estranha realidade que se impôs em distintas latitudes a que entre nós se junta uma excecional situação político-social de enorme inquietude e de grandes incertezas.

Para a reconhecer não é preciso mais do que atender à preocupação do Presidente da República quanto à necessidade imperiosa de haver aprovação do Orçamento do Estado (OE) para o próximo ano. Se a esta inquietação de Marcelo Rebelo de Sousa juntarmos a debilidade económica que o país atravessa e o consequente aumento do desemprego, a situação enegrece ainda mais.

Uma situação político-social excecional sobrevinda em circunstâncias particulares que exige do governo a capacidade para estabilizar a economia, controlar a pandemia, preparar os investimentos para os fundos disponibilizados por Bruxelas e assumir com a máxima responsabilidade a presidência da União Europeia no próximo dia 1 de janeiro.

A eventualidade de uma crise política nestes contextos tão exigentes, com Marcelo Rebelo de Sousa em fim de mandato e, por isso, impedido de dissolver a Assembleia da República por imperativo constitucional, e ainda quando a sociedade portuguesa se vê confrontada com notícias que minam a credibilidade de altas instâncias do estado como a Justiça, teria certamente consequências imprevisíveis e catastróficas.

Uma crise política nesta conjuntura tão particular causaria ao país não só estragos incalculáveis na sua credibilidade externa, como também levaria os portugueses a um maior distanciamento das instituições democráticas. Um distanciamento que fragilizaria todos os atores políticos tradicionais e que beneficiaria certamente todas as formas de demagogia e populismo, sempre ávidas de se enraizarem na descrença e no desespero.

Neste tempo de tantas inquietantes incertezas, admito que o bom senso prevalecerá. Acredito que, mesmo na ausência de um acordo à esquerda, o Governo do Partido Socialista terá o OE aprovado na Assembleia da República com a abstenção dos partidos à sua direita, nomeadamente o PSD e o CDS/PP.

Neste momento tão extraordinário, um vazio de poder não seria compreendido pela maioria dos portugueses e precipitá-lo abalaria de forma contundente os seus autores e o próprio regime democrático.

Independentemente das ideologias, dos distintos modelos e das salutares diferenças, confio no patriotismo dos diversos atores políticos que nos representam.

Deposito toda a confiança na independência, na sabedoria, na experiência e na habilidade política do Presidente da República. Acredito na sua vontade obstinada para defender o país de todas as vicissitudes circunstanciais deste tempo e na sua capacidade para o retirar da complexa encruzilhada em que se encontra.

Já bastam os sinais inequívocos da alarmante dúvida em que vivemos!

Não é tempo de represálias, de vinganças nem de desforras.

É tempo de defender Portugal e de tudo fazermos para que possa ultrapassar com êxito os numerosos obstáculos que tem no seu caminho.

Uma crise política neste momento seria certamente mais uma grande dificuldade a transpor, mas com prejuízos incalculáveis para todos os portugueses.


Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira
DM

DM

29 setembro 2020