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Namoro agressivo

No dia de S. Valentim falou-se muito sobre violência no namoro; para pessoas que foram educadas a ter o maior recato nas palavras e nas ações diante das “raparigas” do seu tempo, é de ficar de boca aberta. Mas há, como sempre, uma explicação para tudo: o problema, quanto a nós, coloca-se a montante e as análises que se têm feito situam-se todas a jusante. Vai-se à foz e não se vai à fonte. Um dos princípios da boa educação social assentava neste princípio: a educação da criança dava-se em casa para saber-se comportar em público. Se a criança tivesse de ser repreendida diante das visitas ou nos espaços públicos era sinal de que a educação familiar tinha falhado. A educação marcava trilhos e balizas de comportamento e a criança ficava a saber que nem tudo lhe pertencia. Ficavam a conhecer o outro. Há uns dois anos eu disse que a educação do meu tempo assentava numa filosofia educativa da obediência aos pais, aos mais velhos, aos mais necessitados, aos professores e ao regime. A educação, entretanto mudou de filosofia educacional familiar: substituiu-se a obediência pelo individualismo . Isto determinou que cada criança foi considerada um indivíduo só, em si, em vez de ser um indivíduo com os outros. Tornaram-se filhos únicos. O filho único é um indivíduo que está habituado a tudo receber e pouco a partilhar: os brinquedos são só seus, as atenções são todas para si, não tiveram quem lhes disputasse a primazia; viviam num mundo em que tudo lhes era dado e nada negado. Os pais deram em excesso como desforra dos seus tempos que pouco tiveram. No campo dos afetos estes indivíduos faziam dos seus caprichos vontades e absorveram como natural a ideia de que tudo lhe era concedido. Da minha janela vejo o recreio dum centro escolar: são crianças que têm tudo para brincar na hora do recreio. Acho admirável como tratam as crianças de hoje; ter tudo deve ser bom mas, dando-lhes tudo, o que fica para o desejo que é sonho de vir a ter? Quando satisfizerem os seus quereres, o que mais quererão para lá do que se não possa dar-lhes? É bom deixar no passado a escassez de meios, mas depois de tudo ter sem esforço, onde fica o orgulho de vencer as dificuldades? É uma sociedade de saciados. Ora esta sociedade de saciados vai ter a idade de quererem-se uns aos outros; vão encontrar outros quereres e vão verificar que existem outras vontades diferentes da sua . São dois filhos únicos em confronto. Diz o velho adágio popular que duas pedras nunca fazem farinha; a agressão surge porque sentem que lhe estão a tirar o brinquedo; a agressão em jovens é como a dentada da criança quando lhe tiravam o carrinho com que brincava. Continuo a observar as crianças no recreio do centro escolar e vejo como elas estando em grupo, brincam sós. Se esta tendência não for educada teremos mais tarde uma sociedade de indivíduos em vez duma sociedade de pessoas. Estão na fase do egocentrismo; os nossos jovens ainda lá estão. Não lhes ensinaram a estar noutro patamar. Ora, ao retirarem-lhes aquilo que julgavam ser seu, neste caso, o namorado ou a namorada, é razão suficiente para lutar por aquilo que julgavam ser donos: lutam à arranhadela, à bofetada ou à dentada. A isto chamam-lhe ciúmes, e elas julgam que o ciúme é a materialização de amor, quendo, na verdade, não passa de uma violenta expressão de egocentrismo de filho único. Não culpem a violência no namoro à posteriori; a fonte está na educação de casa mas, a verdade, é que a água está a correr um leito turvo e a chegar suja à foz.
Autor: Paulo Fafe
DM

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21 fevereiro 2022