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Minho Pitoresco

A internet permite-nos aceder a publicações que, há algumas décadas, nos obrigariam a trabalhos esforçados junto de alfarrabistas e bibliotecas públicas. Graças aos arquivos digitalizados da Universidade de Toronto, passei a tarde deste sábado a espreitar algumas das 828 páginas digitais do tomo II do “Minho Pittoresco”, obra de José Augusto Vieira, médico e escritor naturalista português da segunda metade do século XIX. Este tomo abre com uma descrição pormenorizada e romântica de Braga e arredores. São parágrafos repletos de adjectivos e figuras de estilo, em que os renques de choupos com vinha de enforcado são elevados a finas aguarelas de tons bucólicos. A páginas tantas, o autor segue pela estrada de Guimarães, “atravessou o idyllico logar de S. João da Ponte… e subiu, vendo desenrolar atraz de si o formoso panorama de Braga, até ao lendário pinheiro da Gregoria”. Depois, socorrendo-se de explicação que ao próprio decepciona, esclarece que a Gregória seria uma vulgar aldeã que por ali se estabeleceu, tendo plantado o pinheiro manso que ainda hoje dá nome àquele lugar. Decepção maior seria a do jovem escritor, caso pudesse avistar o aspecto miserável que apresentam, agora, as encostas do Bom Jesus, Sameiro e Falperra – voltasse ele aos arredores de Braga e não se livraria de uma apoplexia fulminante. Como que a alinhavar tema para crónica futura, dou comigo a pensar na imortalidade de algumas árvores, quando lhes calha em sorte permanecer na memória das pessoas e no nome das ruas e lugares. Podemos, em poucos minutos, derrubar um desses gigantes que levam décadas (quando não séculos) a crescer, mas já não será assim tão fácil apagá-los da memória colectiva. Para consolo da alma, vale-me ter participado, no passado fim-de-semana, numa iniciativa da Quercus, que contou com a colaboração da Junta de Freguesia de Este (São Pedro e São Mamede) e da Câmara de Braga. Miúdos e graúdos, rumámos aos montes sobranceiros ao vale do Este, para lançar “granadas” de sementes e plantar diversas espécies arbóreas e arbustivas. O aspecto mais gratificante desta iniciativa foi perceber o entusiasmo dos miúdos na tarefa, genuinamente interessados em incendiar de verde aquelas áreas ardidas e em ressuscitar, assim, um pouco do pitoresco que começa a escassear no nosso Minho.  
Autor: Fernanda Lobo Gonçalves
DM

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3 dezembro 2017