No passado dia 3 de Janeiro, Vasco Graça Moura perfazia 80 anos de idade. Para assinalar a data, José da Cruz Santos, homem de cultura que soube fazer da sua editorial “Modo de Ler” uma admirável casa da poesia e do livro, tomou a iniciativa de solicitar a amigos e admiradores do Poeta de O Concerto Campestre que escrevessem uma carta ao Vasco, de modo a publicar-se sob a forma de livro este incomum preito epistolar. Respondi sem demora à solicitação recebida e escrevi uma carta na qual analiso sobretudo os notáveis estudos camonianos de Graça Moura.
No dia 3 de Janeiro de 2022, como se lê no respectivo cólofon, foi dada por concluída a impressão do livro Memória para Vasco Graça Moura – 80 Anos, no qual estão coligidas dezassete cartas de amigos e admiradores que responderam ao pedido de José da Cruz Santos. São dezassete vozes, precedidas por um breve e comovido antelóquio de José da Cruz Santos, que evocam, rememoram e homenageiam a multiforme obra de Vasco Graça Moura como poeta, ficcionista, ensaísta, cronista, tradutor, político, e gestor público.
No espectral espaço epistolar assim configurado, as memórias e os testemunhos dos amigos e admiradores são contributos relevantes para se entenderem e avaliarem a riqueza e a complexidade da personalidade cultural, literária e cívica de Vasco graça Moura. Foi um lúcido e inquebrantável defensor e obreiro da portugalidade, como atesta o seu acendrado amor à língua portuguesa, mas nunca foi refém de um nacionalismo arcaico e estéril.
Defendeu coerente e vigorosamente o seu ideário cívico e político, mas rejeitou qualquer forma de sectarismo ideológico que condicionasse a sua liberdade de pensamento e de acção. Cultural, literária e socialmente era um moderno, mas não um vanguardista que advogasse e praticasse a ruptura com a tradição enquanto thesaurus de valores vivos, legítimos e fecundos.
Nos últimos anos da sua vida, preocupou-o profundamente a crise das humanidades e do ensino humanístico em geral, vendo nessa crise uma derrota da liberdade de pensamento e da criatividade do homem. Um dos seus grandes projectos nos derradeiros tempos de vida era justamente a realização no Centro Cultural de Belém de um congresso internacional sobre esta problemática educativa, desde o ensino básico até ao ensino superior. A revolução humanística levada a cabo pela Universidade de Harvard no final do século XX e nos inícios do século XXI era para ele uma estrela polar que anunciava um horizonte de esperança.
Autor: Vítor Aguiar e Silva