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Literacia em Saúde

Não é uma suspeita nem um qualquer desejo, é um facto. Infelizmente, um facto.

Bem podemos tentar continuar a enganarmo-nos e procurar viver de quimeras estritamente ideológicas e nada compatíveis com a realidade e até alimentar a ideia de que continuamos com um serviço estritamente “público, universal e tendencialmente gratuito”. Mas não é verdade. A realidade é insofismável e indesmentível.

As assimetrias são evidentes, gritantes, com a prestação de saúde individual assente na possibilidade de ter um seguro privado de saúde ou, tão só, no código postal de cada um dos portugueses. E quando assim é, temos apenas “meio caminho andado”.

Temos profissionais de saúde de elevada craveira que, na sua generalidade, realizam verdadeiros milagres e alcançam resultados espantosos. Fazem muito com pouco, mas classificar um serviço como universal, onde crescem desmesuradamente os tempos de espera para cirurgias, onde escasseiam os médicos de família, onde são exigidas às pessoas que vivem com doença longas e dispendiosas deslocações para determinados tratamentos, nomeadamente oncológicos, é apenas mera semântica.

Alimentamos um país cada vez mais macrocéfalo, onde a ambição da famigerada coesão territorial não passa de vã promessa.

Para melhorar, ou pelo menos, para ajudar a mitigar este cenário, sublinharia, como prioridade, a necessidade de se incrementar os índices de literacia em saúde junto da população na exacta medida em que contribui para a promoção da saúde e para a prevenção da doença, bem como para a eficácia e eficiência dos serviços de saúde.

Destacaria, neste âmbito, dois conceitos chave: (i) aquisição de Competências e (ii) mudança de Comportamentos.

No que reporta à aquisição de Competências, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), literacia em saúde “é o grau em que cada indivíduo tem a capacidade de obter, processar e entender as informações básicas de saúde para utilizar os serviços e tomar decisões adequadas de saúde”. Nesse sentido, a literacia pode ser entendida como a capacidade que cada pessoa tem de compreender, processar, assimilar e aplicar a informação à qual tem acesso, permitindo-lhe otimizar a utilização das suas competências, desenvolvendo um conjunto de aptidões que se traduzem num determinado nível de conhecimento.

Ora, em Portugal, os indicadores apontam para a existência de um elevado número de pessoas com baixos níveis de literacia, particularmente os idosos, portadores de doenças crónicas, com baixos níveis de escolaridade e baixos rendimentos (DGS, 2018). Por conseguinte, esses baixos níveis de literacia em saúde estão correlacionados com um maior número de internamentos e com uma mais frequente utilização dos serviços de urgência e, bem assim, com uma menor prevalência de atitudes individuais e familiares preventivas no campo da saúde, levando a uma diminuição da qualidade de vida e inerente aumento de custos associados.

Nesse sentido, a mudança de comportamentos nas pessoas, assume preponderante relevância na procura, de forma sistemática, da adopção daqueles que promovam a saúde, previnam as doenças (ex. estilo de vida saudáveis) e assumam com responsabilidade os seus próprios cuidados de saúde (ex. redução do risco da utilização abusiva e por vezes adversa de medicamentos), com especial importância no caso da gestão das doenças crónicas e dos autocuidados.

A utilização mais eficiente e racional dos recursos do Sistema de Saúde que contribuirão indubitavelmente para a sua sustentabilidade, serão pré-sustentadas na habilitação do cidadão no que respeita às decisões adequadas relativamente à saúde, por via da determinante promoção da respetiva Literacia.

Aos profissionais de saúde, enquanto agentes determinantes na sua promoção, caberá a promoção do desenvolvimento de iniciativas impulsionadoras do empowerment dos cidadãos, enquanto que as Organizações de Saúde devem repensar e adaptar os seus processos de prestação de cuidados promovendo, entre outros, a partilha contínua de conhecimento.


Autor: Mário Peixoto
DM

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5 fevereiro 2022