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Jovem, soldado e mártir

A vida dos santos é um livro aberto, o melhor compêndio de uma fé encarnada, posta à prova no crivo do sofrimento e da incompreensão e vivida com a lucidez, a coragem e a tenacidade dos “amigos de Deus”.

Ocorre-me esta reflexão a propósito da celebração próxima do jovem, soldado e mártir S. Sebastião, um santo querido e popular, invocado como defensor contra a fome, a peste e a guerra. São, de facto, muitas as localidades que o veneram e o têm como padroeiro.

Nasceu em Narbonne, no sul de França, pelo ano 280, mas foi em Milão que cresceu e, por causa da morte prematura do pai, foi educado pela mãe, cujo exemplo seguiu de perto.

Ao atingir a idade adulta, ingressou nas legiões do Império Romano. As suas qualidades guindaram-no ao lugar de comandante dos pretorianos, a guarda pessoal do imperador, o que lhe facilitava o acesso aos cristãos presos, nas cadeias de Roma.

Tendo o Império Romano a sua religião centrada na adoração do Estado, “personificado e divinizado na pessoa do imperador, que devia ser adorado como deus” (Pedro Carlos Cipolini, São Sebastião, um cristão para hoje, ed. Paulistas, Lisboa 1985, p. 27), os cristãos recusavam-se a isso. Por esse motivo, a 23 de fevereiro de 303, Diocleciano emitiu este decreto: “Sejam invadidas e demolidas as igrejas. Corte-se a cabeça de quem se reunir para celebrar o culto. Sejam torturados os suspeitos de serem cristãos. Queimem-se os livros sagrados na praça pública. Os bens da Igreja sejam confiscados e vendidos em leilão”.

Começa a perseguição e Sebastião foi denunciado por um soldado. Diocleciano tentou demovê-lo, mas ele mostrou-se firme na fé, na sua expressão e práticas.

A 20 de janeiro, dia consagrado à divindade do imperador, Diocleciano dirigiu-se ao templo do deus Hércules para que fossem oferecidos os sacrifícios do costume. Sebastião aproveitou a ocasião para censurar o império pelas injustiças cometidas contra os cristãos, pela falta de liberdade e pela perseguição. O imperador acusou-o de traição e deu ordens ao comandante dos experientes arqueiros da Numídia (região do norte de África, onde a caça só era possível com flechas) para que o matassem. Ao anoitecer desse dia, Irene, viúva do mártir Castulo, encontrou-o ainda com vida, levou-o para sua casa e cuidou-lhe as feridas.

A iconografia cristã apresenta o santo quase nu, atado a um tronco e cravado de setas porque foi esse o seu primeiro martírio; invoca-o como protetor contra a fome, a peste e a guerra porque, na antiguidade, as flechas ou setas possuíam esta simbologia (cf. Ez 5, 16-17).

Algum tempo depois, já refeito, Sebastião apresentou-se, de novo, diante do imperador e voltou a censurá-lo. Diocleciano ordenou, então, que fosse espancado até à morte, com pauladas e golpes de bolas de chumbo. Tentando impedir que o seu corpo fosse venerado pelos cristãos, os soldados lançaram-no no esgoto da cidade de Roma. Porém, a cristã Luciana foi aí buscá-lo e sepultou-o nas catacumbas.

No ano 680, quando uma peste assolava a Itália, os fiéis recorreram a S. Sebastião, fazendo votos de que construiriam uma Igreja em sua memória, se a peste passasse. E passou mesmo! O culto reforçou-se quando as cidades de Milão (1575) e Lisboa (1599) se viram acometidas por epidemias e, tendo recorrido a S. Sebastião, foram delas libertadas.

A vida do jovem, soldado e mártir S. Sebastião torna evidente a firmeza de fé e de convicções a que, nem na perseguição, renunciou; as obras de misericórdia (visitar os presos, socorrer os aflitos e perseguidos) que, durante a vida, praticou; o testemunho (“mártir” é uma palavra de origem grega que significa “testemunha”) que nos facultou. Sendo um santo muito antigo, a sua mensagem é bem atual.

*Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)


Autor: P. João Alberto Correia
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18 janeiro 2021