1. Enquanto me não provarem o contrário mantenho a convicção de que os tradicionais Meios de Comunicação Social (e agora, em certo modo, também as redes sociais) têm uma tríplice missão a desempenhar: informar, formar, distrair.
2. Informar. Com o máximo de verdade, de objetividade, de isenção.
Porque entendo a Comunicação Social serviço à comunidade e não aos seus donos ou aos interesses de quem a controla, penso que na informação deve procurar responder ao conjunto de perguntas que o cidadão comum legitimamente se faz; ao que quer saber, precisa de saber, deve saber.
Deve saber, repito. Compete-lhe, também, ser um despertador de consciências. Alertar para realidades de que as pessoas se não devem alhear.
Uma coisa é ser mensageiro de esperança e outra, esconder realidades que devem ser postas a descoberto.
Informar denunciando o que há de negativo mas também revelando o muito que há de positivo, dando a conhecer gestos de altruísmo, de solidariedade, de dedicação pelo bem comum. Que se informe da sovinice de uns e se revele a generosidade de outros.
A Comunicação Social falha se procura ser a voz do dono ou fazer fretes a este e àquele.
Nas circunstâncias em que vivemos compete-lhe manter as pessoas informadas da realidade que é a pandemia provocada pelo coronavírus, das suas consequências, das precauções que cada um deve tomar para dela se defender e evitar a sua divulgação. Mas massacrar as pessoas, a toda a hora, com informações alarmistas, repetindo sempre o mesmo, confundindo informação com espetáculo julgo-o profundamente errado.
Compete-lhe também mostrar o erro que tem sido negociar desportistas a peso de ouro e formar profissionais de saúde que tiveram de emigrar por verem que aqui não foi reconhecido o seu trabalho.
3. Formar. Não formatar, mas contribuir para que o comum dos cidadãos possa formar uma opinião fundamentada e tomar opções conscientes. Para isso contribui a troca de ideias através de artigos de opinião, de entrevistas, de mesas-redondas, de debates.
Formar, contribuindo para que as pessoas se habituem a pensar pela própria cabeça e a fundamentar as suas afirmações. Tenham uma correta escala de valores. Reconheçam a sua dignidade e a dignidade dos outros. Saibam usar bem da sua liberdade. Atuem como cidadãos cada vez mais adultos - mais conscientes, mais livres, mais responsáveis – e exerçam corretamente o direito/dever de cidadania. Vivam a consciência de que são sujeito de direitos e também de deveres.
Formar, não ditando dogmas nem impondo opiniões.
Queiramos ou não, a televisão continua a ser uma grande escola para muitas pessoas e há que ter consciência disso.
Também se forma com o modo como se informa e tem havido informações escandalosamente deseducativas.
4. Distrair é, em meu entender, uma outra função da Comunicação Social. Disponibilizar elementos para que as pessoas ocupem os tempos livres.
Que se atue com critério, é evidente, pois há formas de distrair que em vez de ajudar desajudam, divulgam falsos valores, contribuem para a coisificação das pessoas.
Volto ao momento que estamos a viver e motivou a minha reflexão de hoje. Muita gente é forçada a estar em casa. Até que ponto a Comunicação Social está a cumprir o dever de ajudar, de uma forma sã e agradável, a passar o tempo? Até que ponto está a contribuir para um aconselhável convívio familiar?
Isto exige imaginação e, sobretudo, vontade de servir. Porque há de a rádio, por exemplo, querer entreter-nos com música estrangeira quando temos um variado repertório, desde a música popular à mais erudita, capaz de satisfazer os gostos mais variados e semear alegria? Porque não tirar do baú peças de teatro radiofónico que fizeram rir tanta gente? Porque não há de a televisão passar divertidos filmes portugueses?
Há tanta coisa linda que pode ser recordada!
Autor: Silva Araújo
Informação e alarmismo
DM
2 abril 2020