Está aberta a discussão pública em torno do plano camarário para aquele que será o futuro Parque da Cidade das Sete Fontes. Em causa está o Plano de Urbanização e a alteração do PDM para aquela área. É de esperar e será benéfico para todos, que apareçam muitas propostas para que o envolvimento da sociedade se faça de forma positiva e inteligente. Estamos perante uma área, que não só se tornará um pulmão vivo da cidade, como a sua monumentalidade ganhará uma maior expressão, tornando visível a capacidade humana de engendrar mecanismos ao longo da história para se abastecer de água de forma organizada e regular.
Para além da visibilidade que muitos bracarenses já conhecem e que tem permitido salvaguardar as estruturas ali existentes, seria bom que, além de recordarmos o papel essencial que os arcebispos de Braga, D. Rodrigo de Moura Telles e D. José de Bragança, tiveram ao longo do século XVIII, para que o abastecimento de água à cidade se fizesse, a partir das obras de engenharia hidráulica, não perdêssemos de vista que as Sete Fontes remontam à época romana, existindo variados indícios, decorrentes das escavações arqueológicas que ali foram feitas pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho. Esta expressão histórica das Mães de Água obriga a que se olhe para aquele conjunto, como parte integrante da cidade romana que glorificamos todos os anos como a iniciativa “Braga Romana” e que dela se faça uma referência integradora do “modus vivendi” à época. Conferir escala temporal à sua monumentalidade não só trará, ao lugar das Sete Fontes, a visibilidade que merece nos compêndios da história da cidade, como permitirá introduzir na memória coletiva, mais uma referência, a que se juntam tantas outras sobre um período da história que continua a ser estudado e que não terá fim.
Perceber como era feito o abastecimento naquele tempo e que meios possuíam os romanos para tal desiderato, enriquecerá o conhecimento histórico da cidade que tem de ser cuidado, como ainda não o é, na planificação do que queremos seja o conhecimento das novas gerações sobre o passado de Braga.
Ou seja, a liberdade que hoje usufruímos para introduzir matérias como o ensino da história local nas escolas, deveria constituir um eixo estratégico, para que se possa falar, com alguma segurança, de que estamos a fazer tudo para preservar a memória coletiva, não apenas no presente, mas sobretudo, para o futuro.
A articulação dos vários saberes é, assim, essencial para que a história romana das Sete Fontes faça parte, a par de toda a história da cidade, da educação dos mais novos, numa articulação em que mais uma vez a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, terá um papel, fundamental. Apenas por analogia, dado que a gravidade da ignorância histórica por cá é bem menos sofrível, recordo o estudo que há dias saiu sobre o conhecimento que a maioria dos jovens norte-americanos tinha da história da segunda guerra mundial (63 por cento), crendo que os judeus não foram vítimas, mas sim responsáveis pelo Holocausto. Esta deturpação da história, fruto de uma orientação do ensino, virada para a glorificação nacionalista americana, deve-nos fazer pensar que não pode ser esse o caminho, se for concretizada a introdução de disciplinas sobre o conhecimento local, no ensino oficial. Não é desejável nem saudável criar uma geração para exacerbar os feitos locais em detrimento de outros, mas é essencial que cada cidade ou vila, crie condições ao ensino da sua história, como forma de preservação e respeito pela memória coletiva, não esquecendo a sua articulação com a história do país, da Europa e do mundo de forma geral. Conferir escala temporal às Sete Fontes é, por isso, estratégico, fundamental e da mais elementar justiça para com o passado que Braga gosta de exibir e bem. A próxima edição da Braga Romana pode ser uma oportunidade para alimentar o trabalho pedagógico e criar a empatia desejável nos cidadãos que tem aderido em massa a esta iniciativa. Só se pode esperar que por ali nasça um centro interpretativo esclarecedor e indutor de orgulho q.b de modo a que o investimento que a atual geração de bracarenses, se prontificou a realizar naquela vasta área, possa alimentar o gosto pelo conhecimento inteligente e esclarecido do passado de Bracara Augusta.
Destaque
Conferir escala temporal às Sete Fontes é, por isso, estratégico, fundamental e da mais elementar justiça para com o passado que Braga gosta de exibir e bem.
Autor: Paulo Sousa
Ganhar a Escala histórica
DM
20 setembro 2020