O terramoto do dia 1 de novembro de 1755 empobreceu-nos com a destruição de todo um conjunto de construções, uma riqueza incalculável que se desvaneceu. Como todos sabemos, a região de Lisboa foi terrivelmente afetada e, inseridos no tema que estamos a tratar, o património religioso perdeu muitas igrejas, capelas, imagens, bibliotecas de elevado valor artístico, histórico…memorial imenso ligado à devoção dos nossos antepassados à Virgem Maria e que tem sido referido ao longo destas minhas crónicas.
Houve vários fatores desta tragédia que contribuíram para esta calamidade: o terramoto em si; os incêndios que se seguiram devorando, apagando, em muitos casos, a visualização e o testemunho direto de variado património; a severidade das águas do Tejo que responderam às agitações do solo com vagas enormes, obrigando as populações ribeirinhas a refugiar-se, imbuídas de muita fé, nas construções religiosas e na devoção a Maria: Por exemplo, as gentes de Aldegalega (Montijo) serviram-se da Capela de Nossa Senhora de Atalaia onde escaparam sãs e salvas; o povo de Arrentela (Seixal) recorreu a Nossa Senhora da Soledade, celebrando, em agradecimento, uma festa em sua honra.
Tal como há 263 anos, continua a ser venerada pela força das convicções das gentes daquela região, no dia 1 de novembro, comemorando, segundo algumas fontes consultadas, o milagre das águas do rio Judeu onde, naquela situação aflitiva, colocaram a imagem da Senhora, retirada do seu altar, atribuindo-Lhe a Sua intercessão nesta ação prodigiosa, “impedindo que as águas subissem e inundassem a povoação”; o povo crente de Cacilhas pediu a intercessão de Nossa Senhora do Bom Sucesso.
Diz-se, segundo algumas fontes, que no terramoto de 1755 o Tejo inundou a povoação de Cacilhas e as águas só recuaram quando a imagem foi trazida para os locais prestes a ser inundados, pedindo à Senhora a sua proteção.
El-rei D. José I, em 13 de agosto de 1756, determinou que se celebrasse no país uma procissão solene no 2.º Domingo de novembro, fazendo-se, no sábado antecedente, jejum como preparação espiritual para o evento do dia seguinte, agradecendo a Nossa Senhora pelo facto de a família real nada ter sofrido fisicamente com o terramoto, estando, na altura, numa casa de campo em Belém.
A Câmara do Porto não aguardou tanto tempo e no próprio mês e ano do terramoto, 29 de novembro de 1755, fez um voto na Sé, na presença das autoridades eclesiásticas, para que se realizasse uma procissão anual, na tarde do dia de Todos os Santos, com as imagens do Senhor do Além e da Virgem Santíssima, soberana Padroeira do Reino e da própria cidade do Porto, como que em ação de graças a Nossa Senhora da Conceição em virtude da cidade ser preservada.
Em Braga, a população agradeceu à Senhora da Torre numa capelinha junto ao antigo Colégio de S. Paulo, formando uma Irmandade, comprometendo-se, no 1.º dia de novembro de cada ano, realizar uma grandiosa procissão, com a imagem, à volta das muralhas da cidade.
Termino esta crónica, dando conta do desaparecimento de alguns templos históricos mandados construir com tanta fé pelos reinados, e não só, que precederam o terramoto: «a ermida de Santa Maria da Escada junto ao mosteiro de S. Domingos; a de Nossa Senhora do Amparo que existia debaixo dos arcos do Rossio; a de Nossa Senhora do Alecrim construída em 1641; a de Nossa Senhora da Graça, nos Paços da Casa de Bragança, onde a Academia Real da História prestava o seu culto à Imaculada; a de Nossa Senhora da Consolação que ficava por cima da porta do Ferro…»
Realço, também, o desaparecimento de muitas imagens de um valor incalculável e de uma grande veneração, sendo algumas poupadas de uma forma prodigiosa como relata a obra que estou a ler: «No Convento do Carmo onde morreram 14 religiosos, salvou-se a imagem da Padroeira e o Santíssimo Sacramento; a da Senhora do Loreto escapou ao incêndio caindo para trás do altar-mor; a da Senhora da Penha de França e da Senhora do Monte foram achadas intactas no meio das ruínas…»
Perante toda essa destruição e danificação de todo um património religioso pelo sismo, as reconstruções e fundações de novos templos fizeram-se logo sentir, continuando a forte devoção a Nossa Senhora com a construção de novas capelas, igrejas, santuários e de tantas outras edificações e de instituições ligadas ao culto de Maria que vamos assinalar na crónica seguinte.
Principal fonte destas crónicas: “Fátima Altar do Mundo”, 3 volumes, sob a direção literária do Dr. João Ameal da Academia Portuguesa da História; direção artística de Luís Reis Santos, historiador de arte e diretor doMuseu Machado de Castro, Coimbra; realização e propriedade de Augusto Dias Arnaut e Gabriel Ferreira Marques, editada pela Ocidental Editora, Porto, em 1953.
Autor: Salvador de Sousa