A pandemia tem servido de desculpa muito conveniente para disfarçar os mais diversos atropelos, a ineficiência do Estado, as omissões, a falta de programação, visão estratégia. Tudo aparece mais ou menos à linha, ad hoc! Tudo parece funcionar no tradicional “vai funcionando”, no “não é para fazer é para se ir fazendo”, no empurrar da barriga para a frente, no tapa buracos aqui, tapa ali. Enquanto nós cidadãos, povo, não exigirmos, não elevarmos os nossos padrões, enquanto tudo aceitarmos mais ou menos plácida, cândida e anestesiadamente, nunca deixaremos de ser e de conviver com o letreiro que nos colocam de desorganizados, ineficientes mas grandes desenrascas. E olhamos não para aquelas faltas, mas para esta suposta grandeza! Assim seremos sempre um país adiado, sempre enredado em teias de interesses, de deixa andar! E é o que vai sucedendo com a pandemia que deixa mais a nu a continuação de um Estado que não se prepara, não organiza, antes navega ao sabor das ondas e do vento. Todos se lembram do ajuntamento inexplicável de ingleses no aeroporto de Faro pós abertura do corredor aéreo à míngua de funcionários do SEF. Durante semanas foi reivindicado com vasta gritaria pelos nossos responsáveis governativos, mas nesse hiato – ao que resulta dos factos – quedaram-se pela berraria e nada planearam. Depois é ver como estão a funcionar serviços diversos do Estado, sem claras linhas de orientação, sem rigor, sem uniformização de critérios que todos possam assimilar e entender e que, sobretudo, funcionem. Nem mesmo após meses de experiência parece tender a melhorar… Os Tribunais têm, de uns para outros, diferentes comandos e formas de agir, nalguns até vemos seguranças a fazer as vezes de funcionários e talvez estes a fazerem as vezes de outros servidores. Conservatórias há com portas encerradas, com pessoas a bater na porta sem perceber porque umas assim se encontram e ao lado outras não; nestes e noutros tantos serviços os telefones para marcação são o caminho do martírio em horas de espera, como se os cidadãos não tenham de trabalhar e produzir para pagar os tais serviços que exigem aquele tempo perdido. Serviços outros onde obrigam as pessoas a se ajuntarem no exterior, sem quaisquer cómodos, mormente para pessoas mais debilitadas. E que será quando chover? Há algum plano? Há centros de saúde em que se telefona e nada, em que se vai ao mesmo em horário de expediente e os balcões de atendimento estão vazios (por invocadas reuniões segundo informação de alguém ao que parece da limpeza!) Eu testemunhei! Já não chegava a pseudo-telemedicina, que mais não é que uma panaceia cómoda para escamotear as milhares de consultas e cirurgias que se deixaram de fazer à boleia do COVID. Perpassa uma ideia de que os servidores públicos, os mesmos que se encontram na praia, em restaurantes, centros comerciais, hipermercados, são especialmente mais atreitos ao COVID ou este se mostra mais contagioso apenas em zonas de trabalho daqueles e mais do que nos trabalhos de todos os outros. E depois dizem: “vai ficar tudo bem”. Fica, enquanto nos demitirmos do nosso dever de exigência, de reclamação e reivindicação dos nossos direitos! Talvez assim suceda porque as responsabilidades caem em saco roto, se diluem ou quem lidera não sabe, não quer ou não convém tirar ilacções e realmente mudar mentalidades de facilitismo e de desresponsabilização! Todos se acomodam. Claro que há excepções, há sempre! Enquanto assim nos mantivermos Portugal não deixará de ser o tal desenrasca, paralisado, em câmara lenta. Por isto o COVID, ou melhor a sua invocação, é bem conveniente para disfarçar os cada vez mais disruptivos serviços públicos. Talvez por isso muitos queiram trabalhar naqueles, mas muitos queiram ou tenham de ser servidos pelos privados. Triste fado o nosso!
Autor: António Lima Martins