Num destes dias, os meios de comunicação social noticiaram alguns comentários, por parte dos responsáveis do governo de Moscovo, perante um ataque ucraniano a uma localidade russa, de que resultaram a morte e ferimentos de algumas crianças, em virtude de o ataque ter atingido uma escola. E têm toda a razão. Efectivamente, as vítimas não são capazes de se defender e não são as culpadas de que exista um confronto bélico entre dois países, que dura há vários anos.
No entanto, se as acusações são correctas, por parte de quem as fez e sentiu, é bom não esquecer que este confronto militar não teve a sua origem no lado ucraniano. Nos seus começos, segundo os responsáveis moscovitas, tratava-se não de uma guerra, mas apenas de uma “Operação militar especial”, certamente rápida e sem grandes problemáticas morais e de destruição, uma vez que a superioridade guerreira russa resolveria o assunto com brevidade.
Não esqueçam, porém, que a sua resolução de invadir a Ucrânia, para além de não ter encontrado um adversário fácil de calar e suportar essa ocorrência, resultou numa guerra verdadeira e cruel, que já custou aos beligerantes centenas de milhares de vítimas, sobretudo de combatentes, mas também entre a população civil.
De acordo com dados do CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais), com sede em Washington, o conflito iniciado pelo Kremlim em 2022, já custou aos dois contentores perto de 2.000.000 de baixas. Os números calculados atribuem à Rússia 325.000 militares mortos, ascendendo a 1.200 milhão as baixas entre militares já falecidos, feridos e desaparecidos. Do lado ucraniano, entre 100 a 140 mil militares mortos. E a sua população civil também sofre as consequências da contenda. Por exemplo, revela a mesma fonte, em 2025 morreram 2.500 civis e ficaram feridos cerca de 15.000. Desde o começo da guerra, apesar de ser, de acordo com as autoridades russas, uma “Operação Militar Especial”, já perderam a vida à volta de 15.000 cidadãos ucranianos.
Certamente que não poderemos deixar de condenar o que aconteceu no ataque que causou baixas entre crianças russas inocentes e desprevenidas duma escola. Mas não deitar com isso “poeira nos olhos”, como se esta incidência, de todo lamentável, só tivesse lugar do lado ucraniano. A Rússia foi a iniciadora desta contenda e também quem já causou a morte e a enfermidade a tantos e tantos cidadãos do país que atacou e continua a guerrear, além das baixas sofridas entre os elementos do seu exército.
Quando, numa contenda comportamental e até física entre duas pessoas, há sempre a lamentar os ferimentos e os maus momentos que ambas as contendoras experimentam, muito mais graves são as consequências, se a luta já não é inter-pessoal, mas abraça povos inteiros, armados certamente com mecanismos bélicos eficazes. O direito de auto-defesa, se é óbvio entre os contentores singulares, é-o também entre as nações.
Mas a guerra proporciona sempre situações de injustiça e de crueldade, que nos seus princípios não são determináveis. Por isso, desejamos com certeza que elas acabem rapidamente, certamente com acordos que respeitem os direitos de cada povo ou nação de viver em paz e de não caminhar por horizontes bélicos, que lhes trazem inevitavelmente tantas mortes, injustiças e destruições.