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Por que (quase) extinguiram o ‘novo Pentecostes’?

 



 

 



 

«Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem. (…) Estavam todos assombrados e, sem saber o que pensar, diziam uns aos outros: «Que significa isto?» Outros, por sua vez, diziam, troçando: «Estão cheios de vinho doce» (At 2, 4.12-13).

Escutamos neste domingo (apelidado) do Pentecostes – cinquenta dias depois – este texto do livro dos Atos dos Apóstolos. Só com uma ligeira diferença, na proclamação da liturgia da Palavra: os últimos versículos aqui citados não constam da leitura, embora fechem tecnicamente, o trecho bíblico. Por que razão se excluíram estes versículos – ‘Estavam todos assombrados e, sem saber o que pensar, diziam uns aos outros: «que significa isto?» Outros, por sua vez, diziam, troçando: «Estão cheios de vinho doce’? Teríamos de fazer o enquadramento histórico-simbólico da passagem e isso podia colocar-nos problemas sobre o efeito do Espírito Santo ‘comparável’ àquilo que o vinho pode provocar nalgumas pessoas? Outro tanto será preciso para explicar o que aconteceu, na Igreja católica, depois do Concílio Vaticano II e como isso deixou ou não consequências até aos nossos dias…



 

1. O Pentecostes judaico, numa fase mais remota era uma ‘festa de colheitas’ – Ex 3,22; Nm 28,36 e das primícias da terra, entre os quais o vinho, com os efeitos que isso provocava nalguns e que ocorria sete semanas depois dos ázimos (Páscoa), tendo, posteriormente, o mesmo Pentecostes tido a significação da dádiva da Lei – Ex 19,1-6. Assim se explica a confluência de tantas procedências para Jerusalém por ocasião do Pentecostes, tal como acontecera por ocasião do processo de Jesus.



 

2. Decorridos quase dois mil anos e no rescaldo do Concílio Vaticano II – de 1962-65 – surgiu, no contexto católico, um fenómeno que enchamejou a América (do norte e do sul) e a Europa, tendo chegado a Portugal no início de novembro de 1974. Foi o renovamento carismático, esse filão de Deus que percorreu as diversas Igrejas cristãs e que fascinou tantas pessoas: jovens e adultos, padres e leigos, bastantes religiosos/as, sem esquecer tantos outros à procura de Deus, pela descoberta do Espírito Santo. Tive a dita de conhecer, sentir e vivenciar este ‘movimento’ – tantas vezes rescrito como Igreja em movimento – e onde se percebia a presença do Espírito Santo, fazendo com que muitas das passagens dos Atos dos Apóstolos não parecessem mais textos do passado longínquo ou que textos de São Paulo, sobre os carismas – desde os mais simples até aos pretensamente complexos – fossem atualizados de forma simples e vivencial. A esta corrente de graça – assim definida por Paulo VI, em 1975 – o cardeal Suenens rotulou de ‘novo Pentecostes’.



 

3. Quem consultar obras e movimentos, institutos e congregações, comunidades e associações nascidas no contexto da Igreja católica, sobretudo na década de oitenta do século passado, poderá perceber a dimensão frutuosa dos carismas do Espírito Santo… mesmo em espaços extra-católicos. França e Estados Unidos foram terrenos em que se foram manifestando inúmeros processos de dimensão carismática, com tantas comunidades segundo um espírito novo e foi mesmo cunhado o termo de ‘sociedades de vida apostólica’ (cf. Código de Direito Canónico, cânones 731-746) para dar configuração jurídicas a essas expressões ‘carismáticas’ em ebulição. Em Portugal houve acenos de imitação à francesa e à brasileira, com resultados pouco convincentes, tanto por inépcia como por menor capacidade de visão para com o futuro…



 

4. Sendo um ‘movimento do Espírito Santo’, esse renovamento carismático foi-se adaptando às condições de sobrevivência e até a nomeação de um assistente como que menorizou a força do mesmo Espírito. Quantos carismas renovadores da vida cristã – canto em línguas ou profecia – foram perdendo espaço e sabor. Quantos servidores com carismas – do ensino ou da cura – foram sendo atirados para fora da máquina sem ritmo bíblico e comunitário. Quantos dons, que nunca floresceram em carismas, mesmo que, em certas circunstâncias, possam ter sido revestidos da configuração de ministérios… Não extingais o Espírito!

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

25 maio 2026