Celebra-se hoje mesmo, dia 25 de maio1, a Memória Litúrgica de S. Beda, o Venerável2, uma das figuras religiosas e intelectuais mais importantes da Alta Idade Média. Este monge beneditino, teólogo, historiador e estudioso inglês nasceu em 672 ou 673, no noroeste da Inglaterra, numa região que, à época, fazia parte do reino da Nortúmbria e atualmente integra a região de Sunderland.
Desde que, em tenra idade, foi confiado aos cuidados do abade Bento Biscop3, Beda viveu praticamente toda a sua vida nos mosteiros de Wearmouth e Jarrow, onde havia uma biblioteca excecional para a época, o que lhe permitiu um nível intelectual raro no Ocidente medieval. Não tendo viajado para além da sua região - o seu mundo era o mosteiro, os livros e os estudantes - nem por isso deixou de influenciar toda a Europa e de se tornar uma figura gigantesca da cultura medieval.
Tendo-se destacado em várias áreas do saber (história, exegese bíblica, liturgia, cronologia, astronomia e vida monástica, entre outros), a sua principal obra é, sem dúvida, a Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum (“História Eclesiástica do Povo Inglês”4), que vai das origens até ao ano 731 e de que nenhum historiador dos primeiros séculos da Europa pode prescindir. Trata-se de uma obra fundamental porque preserva muito do que hoje se sabe sobre a Inglaterra anglo-saxónica primitiva, incluindo a evangelização dos povos ingleses. Com base nesta obra, onde as fontes são verificadas, a tradição oral é distinguida dos testemunhos escritos, os eventos são organizados cronologicamente e a escrita apresenta um rigor pouco comum para a época, Beda passou a ser designado “pai da história inglesa”.
Escreveu cerca de 60 obras científicas, históricas e teológicas, reflexo da abrangência dos seus interesses. Conhecia a literatura patrística e muitos dos escritores antigos (Plínio, Virgílio, Lucrécio, Ovídio, Horácio), de quem traduziu para o inglês da época diversas obras. Além disso, as suas muitas cartas são verdadeiros tratados.
Nos seus escritos, Beda fala um pouco de tudo: da ortografia, dos autores clássicos, dos santos do Martiriológio, do calendário “gregoriano”, etc. As suas obras de exegese, à base do método alegórico de interpretação, de teologia e de espiritualidade assumiram uma enorme relevância nos mosteiros até à chegada da Escolástica.
Beda destaca-se ainda por ter introduzido o conhecimento dos Padres latinos na Inglaterra e por ter sido o primeiro autor a escrever em inglês. Para além disso, ajudou a popularizar o sistema de datação “Anno Domini” - que toma Cristo como referência -, desenvolvido anteriormente por Dionísio, o Pequeno. A adoção e promulgação deste tipo de datação na sua obra cronológica De Temporum Ratione é a razão pela qual se tornou tão amplamente utilizada.
Beda faleceu em 26 de maio de 735 (Dia da Ascensão), com 62 anos de idade, no mosteiro de S. Paulo, em Jarrow. Os seus restos mortais foram transferidos para a Catedral de Durham, no século XI. Apesar de o seu túmulo ter sido saqueado em 1541, é provável que as relíquias tenham sobrevivido e sido reenterradas na Capela Galileia, na mesma catedral.
Foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Leão XIII a 13 de novembro de 1899, um título reservado a autores cuja obra teve enorme impacto na teologia e na cultura cristã. Durante mais de cem anos, foi o único inglês a ter recebido tal distinção5 e a ser citado na Divina Comédia de Dante (Paraíso, X.130), entre teólogos e doutores da Igreja, a par de Isidoro de Sevilha e Ricardo de São Vítor.
Não sendo muito conhecido entre nós, é, pelas muitas razões acima referidas, uma das figuras maiores do catolicismo. Porque não pode passar ao rol do esquecimento, merece a nossa melhor atenção e aqui lhe rendo homenagem, no dia da sua memória litúrgica.
1A sua festa foi incluída no Calendário Geral Romano, para ser celebrada em 27 de maio e não no dia de sua morte, que já era, à época, a festa de S. Gregório VII. Atualmente, é venerado na Igreja Católica e na Comunhão Anglicana a 25 de maio e na Igreja Ortodoxa a 27 de maio.
2Este título passou a ser-lhe atribuído pouco depois da morte, reconhecendo a sua santidade e erudição.
3São Bento Biscop (c. 628-690) foi um nobre anglo-saxão, soldado e abade, célebre por fundar os mosteiros de Wearmouth e Jarrow. Notabilizou-se por trazer artesãos, livros, vitrais e a música romana para a Grã-Bretanha, transformando-a num centro cultural.
4Eis como, no epílogo desta obra, Beda se apresenta: “Eu, Beda, servo de Deus, nasci perto da abadia de Wearmouth, e só tinha sete anos quando fui confiado aos cuidados do abade Bento (S. Bento Biscop). Desde então, passei toda a minha vida no claustro, repartindo o tempo entre o estudo da Sagrada Escritura, a observância regular e a celebração do ofício divino. Toda a minha felicidade estava em estudar, ensinar e escrever. Fiz-me padre aos trinta anos. Desde então até agora, que tenho 59, apliquei-me a redigir, para meu uso e para o dos meus irmãos, comentários da Sagrada Escritura, umas vezes tirados da Sagrada Escritura, outras vezes tirados dos santos Padres, e outras ainda concebidos no espírito deles...”.
5Perdeu este estatuto quando, a 1 de novembro de 2025, na Solenidade de Todos os Santos, o Papa Leão XIV proclamou John Henry Newman como Doutor da Igreja.