Cada vez mais próximas, as eleições presidenciais são um convite de bom comportamento democrático a todos os eleitores portugueses. A democracia supõe o concurso opinativo de todo o cidadão. Cada um deles, através do seu voto, pode manifestar a sua preferência por determinado candidato. E aceita, pacificamente, que o vencedor, que pode não corresponder com o da sua opção, tome conta do lugar para o qual foi eleito.
Decerto que este sistema não se baseia apenas na boa fé de todos os votantes, que supõem que não existe qualquer tipo de fraude na contagem ou na entrega dos votos. Por isso, acreditam que o sistema democrático exige a todos um comportamento cívico exemplar, respeitando a vontade da maioria.
Quando se fala de algumas eleições em países onde a democracia é uma balela, saindo sempre como vencedor quem se encontra no poder, dá pena entender que essas sociedades vivem atrofiadas, já que escondem por meios e modos inconfessáveis, critérios de procedimento que nada têm de democrático. Recordo, há talvez vinte ou mais anos, umas hilariantes eleições num país ditatorial, onde nas mesas já se encontravam junto às urnas os votos à disposição dos eleitores. Contudo, apenas só apresentavam um candidato. O cidadão devia entrar, deitar o voto na respectiva urna e depois ir-se embora, não me lembrando se dava o seu nome ou o escrevia, ou, pura e simplesmente, lançava o papelito no sítio próprio e nada mais. Claro que o ditador e os seus apaniguados venciam por margens astronomicamente maioritárias.
Não pode nem deve um país sentir-se satisfeito, quando o acto eleitoral aponta como grande vencedor uma abstenção gigante. As razões podem ser muitas, mas sempre deixa dúvidas se a facção (partido ou pessoa, como é o caso das nossas próximas eleições para Presidente da República) triunfantes são, ao fim e ao cabo, as opções legítimas e verdadeiras do povo, quando este se borrifou, em grande número, para o acto eleitoral e ficou, de perna estendida, em casa, a ver pela televisão os resultados que iam saindo no ecrã.
Tanto quanto parece, uma atitude significativa de eleitores abstencionistas implica um falhanço muito forte de quem está no poder e não sabe cativar os cidadãos para a sua responsabilidade. Talvez até seja um modo dum grupo de cidadãos, que sabe de antemão quem vai vencer de acordo com as sondagens - supondo-as honestas e fiéis -, de se aproveitar desta inércia para não fazer ondas e deixar correr as coisas como estão, não incitando com vigor e sinceridade os eleitores a deixar o seu voto no dia aprazado. É uma atitude anti-democrática.
Além de que, a presença maciça dos eleitores nas urnas pode manifestar, de vários modos, o seu acordo ou desacordo e dar uma ideia bastante mais clara das preferências do povo. Recordemos que, por exemplo, nas próximas eleições, é possível não só votar num candidato preferencial, como entregar o voto em branco, ou ainda deixar um voto nulo. E não tenho dúvidas de que é diferente uma votação considerável de votos em branco ou de votos nulos. É muito mais significativa do que a ausência desinteressada e cómoda do abstencionista que não aparece. Este está-se nas tintas para o acto eleitoral. Quem votou em branco ou nulamente afirma, no primeiro caso, a sua vontade ou indisponibilidade por não optar por um candidato concreto ou, na segunda hipótese, a sua rejeição por qualquer um deles, ou até pelo sistema.
Esperemos pelo próximo acto eleitoral para ver como decorre a presença dos cidadãos numa circunstância em que a democracia o convida a dar o seu parecer. Só desejamos que não fique em casa tranquilamente, não por convicção da inutilidade da sua opção, mas pela velha preguiça que o acomete e mancha a sua qualidade de cidadão dum modo claro e irrefutável.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva