Conheci o João do Rosário nos seminários de Braga, no início dos anos 90. Natural de Angola, viera para completar os estudos filosóficos e teológicos em Portugal, tendo como horizonte a ordenação sacerdotal. Dotado de um singular sentido de amizade e de uma aptidão ímpar para a comunicação, ora nos brindava com engenhosas tiradas oratórias, ora fazia jus a um refinado humor. Um dia, num intervalo de uma aula, alguém se propôs partilhar uma pasta de chocolate com os presentes. Antes de aceitar de bom grado a parte da oferta que lhe cabia, replicou o João com ar malandro: “Nunca como chocolate preto. Não quero trincar os dedos”. Rimo-nos, uma vez mais, a bandeiras despregadas. Assim era o João, um aluno perspicaz, um amigo fiel e brincalhão.
Hoje, perdemos o sentido de humor. Uns bradam aque d’el-rei sempre que se graceja com questões mais melindrosas, sem sequer ter em conta o contexto em que tais declarações foram proferidas. Outros recorrem ao humor para legitimar no espaço público, de forma mais ou menos escamoteada, tomadas de posição de caráter duvidoso contra quem é diferente. Ficamos quase invariavelmente reduzidos a medir a intenção do enunciador, um pouco à maneira desses comentadores desportivos que, a propósito de uma pretensa falta ou mão na grande área, vislumbram propósitos e intensidades díspares em função da pertença clubística do jogador em causa.
É inegável que o facto de ter sido o João a gracejar sobre a cor da sua pele não é um pormenor de somenos. No caso em apreço, em virtude da amizade e do respeito mútuo que nos unia, uma eventual alusão nossa à cor da pele do João não deixava espaço a qualquer mal-entendido. Mas nem sempre é assim. Já dizia Cyrano de Bergerac, na célebre peça de Edmond Rostand (1897), a propósito da persistente chacota que suscitava o seu proeminente nariz: “Je me les sers moi-même, avec assez de verve, mais je ne permets pas qu’un autre me les serve“ (ato 1, cena 4). Numa tradução muito livre, “embora eu possa zombar de mim mesmo, até de forma mordaz, tal não significa que outros o possam fazer”.
O humor sempre foi um termómetro para medir as relações socioculturais. Tanto pode ser um recurso para ofender quem é diferente, como uma forma de abordar temáticas menos suscetíveis de serem debatidas noutros contextos (racismo, sexualidade, religião, etc.). Quando as tensões entre comunidades ou grupos distintos são mais palpáveis, mais não serve do que exacerbar rivalidades. Em contexto intracomunitário, pode ser experienciado como manifestação de autorreconhecimento da coletividade em torno de estereótipos e raízes partilhadas. Nos tempos que correm, é todavia arriscado aventurar-se a fazer humor fora do espaço privado. E assim será, enquanto não se acalmarem as tensões que cada vez mais dividem o tecido social. Estes tempos não estão para segundos sentidos e discursos dúbios. Como dizem nuestros hermanos: las cosas claras y el chocolate espesso.
O João já não está entre nós. Concluiu a licenciatura em Teologia e foi ordenado padre. Logo em seguida, decidiu complementar a sua formação universitária na área do jornalismo, enquanto colaborava no Diário do Minho. Passados uns anos, regressou a Angola para dar o seu contributo ao desenvolvimento de uma nação que então se levantava penosamente de uma sangrenta guerra civil. Mal chegou ao país de origem e já um acidente lhe roubava a vida; uma vida que tanto tinha para dar aos outros. Ficaram as saudades imensas de alguém que deixou vestígios indeléveis em quem com ele teve o privilégio de privar. Quando recordo os dedos do João do Rosário, lembro-me sempre que o humor genuíno é a marca dos Homens bons.
Autor: Manuel Antunes da Cunha