Considerando as graves dificuldades sanitárias, económicas, laborais e sociais que o país atravessa e com tendência de agravamento, só o bom senso, o altruísmo e, porque não, o patriotismo nos pode salvar: e isto passa por uma paragem. uma aproximação e entendimento que se traduzam num esforço, num voluntarismo comum entre os que governam, dirigem e mandam, ou seja, o governo, os empresários, os dirigentes partidários e os políticos em geral.
Muito claramente é tempo de enterrarem os machados de guerra políticos, sentarem-se à mesa e dialogarem para que alcancem as soluções essenciais e urgentes para as necessidades do país; e, se necessário for, se decidirem pela formação de um governo de salvação nacional com o presidente da República, que é o presidente de todos os portugueses, empenhado e motivador desta solução.
Todavia, o que vemos é o primeiro-ministro António Costa, politicamente catalogado como um jogador, manipulador e manobrador de excelência, a pressionar, de calças na mão, a formação de uma nova geringonça à esquerda para aprovação do Orçamento 2021, fazendo bluff ao ameaçar com o fim do governo e a consequente crise institucional; e, entretanto, as esquerdas, ávidas de protagonismo e holofotes, dizem para fora uma coisa, mas fazem outra bem diferente para dentro, pois interessa-lhes sobremaneira segurar o seu eleitorado, mesmo que engolindo sapos e mais sapos.
Então, será que teremos novamente a antiga geringonça em ação? António Costa puxa arduamente por ela, embora o Partido Comunista se faça caro e exigente, o que na perfeição encaixa na sua estratégica política que sempre exige publicamente um pedaço do bolo mas acaba por se satisfazer com uma simbólica fatia; e isto joga com a evidência marxista-leninista de que é com pequenas mas firmes vitórias, com paciência e taticismo que se acaba por ganhar a guerra.
Pois bem, perante tal cenário, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente dos afetos, estica a corda e não aceita, na atual conjuntura, uma crise política; e, assim, força o diálogo e o entendimento, mesmo à esquerda, para aguentar o barco, sabendo, ademais, que durante os próximos 6 meses (outubro-março) está refém das eleições presidenciais que se realizarão em janeiro, não podendo dissolver o parlamento e marcar eleições, formar um governo de sua iniciativa que não passaria no parlamento ou tentar a formação de uma maioria parlamentar que governe; e, obviamente, não é nenhuma destas soluções que lhe agrada, pois podia comprometer a sua reeleição.
Agora, perante a crise que já vivemos e com agravamento garantido, perante uma nova vaga pandémica e a presidência da União Europeia no primeiro semestre de 2021, o próximo ano é decisivo para a vida do país; e, nestas circunstâncias, o nosso futuro político não passa de um intrincado jogo do bate e foge ou do dá e leva em que certa política que por aí se faz é farta, fácil, fiel e façanhuda.
A tudo isto há que acrescentar uma evidente instabilidade social resultante do desemprego, da crise económica, da miséria e da fome que assalta já grande maioria de famílias; e que bem pode espoletar avanços de extremismos e populismos o que faz com que António Costa apele ao toque a reunir da geringonça, alertando, ameaçando e responsabilizando os parceiros (BE e PCP) pela perda do poder e sua entrega à direita ou seja à reação e ao fascismo.
Ora, quer o Bloco de Esquerda, quer o Partido Comunista Português nem querem ouvir falar em tal, pois, perante a necessidade de eleições e o avanço das direitas, pode-lhes acontecer o que já lhes aconteceu com o famoso chumbo do PEC IV de José Sócrates que lhes custou uma humilhante derrota nas urnas; deste modo, uma geringonça a três (PS; BE e PCP) é a única saída que António Costa almeja e adivinha vai acontecer, mesmo que as reivindicações dos dois parceiros sejam demasiado exigentes e difíceis de satisfazer.
Ademais, ele sabe de ginjeira que o BE e o PCP preferem umas migalhas que sejam de cedências no Orçamento em vez de um chumbo nas urnas e a perda do poder para as direitas; e além de que tais migalhas servem bem parta alimentar as suas utopias, o seu narcisismo dos amanhãs que cantam dos marxista-leninista ainda crentes e saudosos do sol que brilhará para todos nós.
Depois, sabemos que Rui Rio, líder do PSD ainda não preparado está para ganhar as próximas eleições e prefere aguardar o cenário que se desenrola com o avanço da geringonça; e até porque sabe bem que, ao assumirem responsabilidades governamentais nesta dificílima conjuntura nacional, os três parceiros da geringonça vão a jogo para perder.
E, obviamente, enquanto eles jogam este jogo da cabra cega, ele e o seu Partido vão-se preparando e robustecendo para o que, a seguir, vier; e que será insofismavelmente uma mudança no xadrez político e na governação e, quiçá, uma mudança do próprio regime.
É, assim, perante este difícil aperto nacional, que faço o apelo aos políticos para que enterrem os machados de guerra e se entendam a fim de evitarem ou amortecerem, ao menos, a hecatombe que se avizinha; todavia, infelizmente crente estou que o meu apelo não passará de um falar para o boneco, de um assobiar para o lado.
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado