Estou sinceramente preocupado pela apatia ou mesmo desinteresse total que se nota nos eleitores portugueses. Não se fala em política, parece que caiu sobre o ato de escolher um governo um silêncio de fundo do poço. Nem nos cafés, nem nos barbeiros ou cabeleireiros, nem nas festas familiares se fala, mesmo que fosse ao de leve, nas eleições próximas. Um silêncio surdo caiu como manta espessa sobre o frio. Meus senhores e minhas senhoras, trata-se de escolher o governo que durante quatro anos nos vai governar. Isto não é escolher um vestido ou uns sapatos; não se pode descalçar se aperta ou despir se não serve. Trata-se de termos à frente alguém que superintende na educação, na saúde, na segurança, nos vencimentos, nas aposentações, no comércio, na indústria, etc., etc. Parece-lhe que isto é uma coisa menor? Pois se assim pensa está muito iludido e desculpe-me dizer-lhe que está a colaborar com aqueles que abdicaram de si, e se deixam governar pela opinião dos outros, ou iguala com todos aqueles que dizem não vale a pena, eles são todos iguais. Este conceito é a que eu chamo desculpa de vírus; quando se não sabe identificar a doença a culpa é de um vírus que anda por aí. Assuma as suas convicções, pense que é uma pessoa e não uma marioneta; vá votar, vá colocar a cruz naquele partido que, no seu entender, e não no entender de outros, melhor serve os seus interesses. Se é professor sabe quem ou qual o que mais lhe interessa na contagem do tempo perdido; se é doente veja quem tem melhor política de assistência médica, se é aposentado olhe quem promete não lhe tirar mais do que aqueles que lho tiraram, se é militar, enfermeiro, médico, ou profissional liberal, olhe e leia com atenção as propostas dos partidos em presença. Se é trabalhador doutros ramos veja quem mais o favorece na leis laborais. E se eles não cumprirem, se tudo não passar de promessas eleitorais? Denuncie-os porque a democracia não se esgota no ato eleitoral, não se restringe ao voto de quatro em quatro anos, vive-se dia-a-dia como o quotidiano e tem direito ao protesto. Desacredite-os. Somos dos que temos o maior apreço ao direito à indignação. Responsabilizar o voto é exigir aqueles que escolhemos que cumpram o que prometeram. A democracia é um sistema político que aponta para a governação por eleição, mas também responsabiliza os eleitos e os eleitores. Quem mal semeia mal colhe. Eles governam em nosso nome e abusar dele é defraudar o sistema eleitoral, como se fosse publicidade enganosa. Todo o governo que não cumpra o que prometeu aos seus eleitores, por moto próprio dever-se-lhe-ia retirar a confiança política. Quem me engana uma vez não me engana segunda vez. Quem mais promete mais mente e por este primeiro sinal podemos aquilatar daqueles que podem cumprir ou não cumprir o que propõem. Há dois candidatos a primeiro-ministro. Escolha um deles. Onde mora a sua abstenção?
DESTAQUE
Assuma as suas convicções, pense que é uma pessoa e não uma marioneta; vá votar, vá colocar a cruz naquele partido que, no seu entender, e não no entender de outros, melhor serve os seus interesses.
Autor: Paulo Fafe