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ALMOFADAS FINANCEIRAS RECOMENDAM-SE

Na vida das pessoas e das famílias, como das empresas e do Estado, há conhecimentos básicos sobre poupança e investimento que não podem nem devem olvidar-se, quando se pretende tomar boas decisões financeiras.

E não é preciso tirar nenhum curso de economia e finanças para aprender coisas tão comezinhas como saber apreciar o valor do dinheiro, não gastar mais do que se tem, fazer um pé-de-meia para encarar o futuro com tranquilidade e segurança e rentabilizar essa poupança segundo o feitio ou o perfil de cada um.

Ora se estas recomendações são válidas para todos os tempos, impõem-se por maioria de razão em períodos de crise ou em situações crónicas de elevados passivos que obrigam ao pagamento de juros e à amortização dos respectivos capitais.

Vem este pequeno preâmbulo a propósito da subida das taxas de juros da zona euro e da persistência de uma mais alta inflação, com elevado risco de subida em espiral.

Como desde o início do ano se tem visto, os preços da energia têm disparado, o mesmo sucedendo com os preços de quase todos os bens e serviços, o que vem gerando o aparecimento de reivindicações de subidas salariais, com o consequente aumento dos custos reais do trabalho e de novos aumentos dos preços.

Estima-se que, no ano em curso, a taxa de inflação oscile entre os 2,5% e os 6% mas que, com a maior probabilidade, venha a situar-se acima de 5%. Se tal previsão se vier a concretizar, tudo indica que o Banco Central Europeu (BCE), para controlar a situação, se irá ver obrigado a subir, a breve prazo, as taxas de juro. E isso terá certamente um forte impacto na economia portuguesa, sabido que é que, durante a pandemia em curso, Portugal adoptou um modelo de ajudas públicas às pessoas e às empresas assente sobretudo em moratórias de crédito e fiscais que nos tornam um dos países europeus com mais elevado índice desse tipo de dívidas. Por isso, apesar desta estratégia adoptada pelo Governo ter permitido manter a inflação baixa, com o previsível aumento das taxas de juro na zona euro, é enorme o risco de uma elevada percentagem do crédito sob moratória entrar em incumprimento, tanto mais que, na maioria dos empréstimos às famílias e às empresas, a taxa de juro é variável.

Sabendo-se que as taxas de juros dos empréstimos para compra de casa, assim como os créditos às empresas, estão geralmente indexados às taxas Euribor e sendo estas forçosamente influenciadas pela evolução das taxas de juro de referência do BCE, é quase seguro que, ainda no corrente ano ou no próximo, os portugueses vão sofrer o impacto do agravamento das suas prestações de crédito, o mesmo sucedendo com aqueles que se preparam para pedir novos empréstimos, com a agravante de terem ainda de lidar com o fim das moratórias de crédito, em 31 de dezembro findo. E convenhamos que, nos sectores mais afectados pela crise pandémica, ter de enfrentar conjuntamente estes dois fenómenos é algo difícil de suportar!

Se pensarmos ainda que, a médio e longo prazo, a dívida pública do Estado também irá ser afectada pelo aumento das taxas de juro, na medida em que se prevê que o BCE deixe de comprar tantos títulos da dívida pública como até aqui vinha fazendo e comece a subir as suas taxas de referência – o que, inevitavelmente, levará a aumentos da carga fiscal –, aí teremos mais um motivo de grande preocupação para o futuro.

Neste previsível cenário, depois de uma série de anos consecutivos em que as taxas de juros se mantiveram invariavelmente a níveis muito baixos, criando a ideia de que tal situação se manteria no futuro próximo, vai ser necessário que as pessoas se habituem, de novo, a precaver-se contra as variações do preço do dinheiro. E isso passa, entre outras medidas, pela criação de almofadas financeiras. É evidente que tal prática é custosa, sobretudo em anos de vacas magras. Mas que garante um sono mais tranquilo, lá isso garante. E a tranquilidade é um bem inestimável!


Autor: António Brochado Pedras
DM

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18 fevereiro 2022