twitter

A propósito e a despropósito

Um dos assuntos do momento é a proposta de Orçamento de Estado (OE) para 2023, entregue na Assembleia da República na semana passada. A oportunidade serviu, como de outras vezes, para um número fotográfico. Desta vez, durante a pose para a fotografia, o documento caiu, estatelou-se no chão. Fernando Medina não conseguiu segurar o dito-cujo no ensaio inicial. Para alguém mais sugestionável, o acontecimento podia ter uma leitura mais ou menos esotérica, mas não vale a pena desenvolver por aqui o tema. O OE vai mesmo ser aprovado. A maioria absoluta do Partido Socialista (PS) no Parlamento não deixará de se manifestar e de impor a proposta do seu Governo às restantes bancadas. Sem cedências, a não ser em algumas questões de pormenor para parecer que se respeitam outras perspectivas – é mais fácil ceder quando a esquerda tem algum poder –, a proposta parece não trazer novidades. Apesar do reiterado discurso de que os portugueses seriam ressarcidos dos prejuízos que lhes trouxe o governo de Passos Coelho e de Portas, a austeridade mantém-se. De outro jeito, mas austeridade na mesma. Agora embrulhada, para que se não perceba do presente envenenado que alguns já começaram a receber. As consequências a prazo tenderão a ser de mais prejuízo, a acumular ao que antes fora criticado. Não sei, de resto, como se poderia alguém recusar o presente, mas, independentemente disso, o facto é que a maioria dos cidadãos precisa do que lhe mandaram ou lhe vão mandar, tais são as dificuldades por que passam, por causa, entre outras coisas, da carestia de vida. Vão continuar a sobrar necessidades básicas insatisfeitas.

Outro dos assuntos que vem a propósito é o dos abusos sexuais na Igreja em Portugal, que tem alimentado a imprensa escrita e os telejornais diários. E servido a ferocidade de alguns, ávidos de xingar, por animosidade e intolerância, na Igreja Católica. Claro que os crimes de que se fala foram muitos e precisam de ser condenados, mas devem ficar com quem os praticou. Em todas as organizações há desalinhados que são julgados e, nem por isso, aquelas são rotuladas disto e daquilo. Já houve membros do Parlamento e do Governo que foram apanhados na curva por ilicitudes várias e, nem por isso, aqueles foram considerados sociedades de bandidos. Não faria sentido. Não é razoável, nem justo, que alguns aproveitem o que se está a passar para libertarem todo o ódio contra uma instituição religiosa que não deve ser atingida na sua dignidade e honra pelo simples facto de alguns dos seus terem infringido as regras e se terem tornado, por via dos seus comportamentos desviantes, merecedores de condenação. Mas, a verdade tem de pontificar. E já li e escutei palavras duras de várias pessoas, de dentro e fora da Igreja, ainda assim equilibradas, contra os crimes que vieram a lume, palavras que começaram por ser tímidas, por ser novidade a implicação de pessoas da estrutura da Igreja e são agora menos condicionadas pelos silêncios atónitos e até temerosos, o que é bom para a necessária e completa clarificação. O Cónego João Aguiar Campos define bem o que me parece ser o sentimento da grande maioria dos membros da Igreja: “Não escondo que me custa a acreditar no que leio. Não escondo que me parecem impossíveis atitudes e circunstâncias. Mas, fora dos meus estados de alma, importa que a luz tudo ilumine!...” O processo irá fazer correr ainda muita tinta, mas originará, com toda a certeza, uma nova vida na Igreja, com mais cautelas e maior atenção das comunidades e da hierarquia.

Pode não vir ao correr da oportunidade, mas há outros assuntos a não esquecer. Quando se trata de chegar ao poder e de o manter o mais tempo possível, a ideologia parece perder importância. Os objectivos passam a concentrar todo o entusiasmo. Que importa a um partido de esquerda, como tradicionalmente tem sido o PS, ser criticado por usar um discurso que capta os eleitores do centro e até da direita? Quando o móbil é o poder!... Depois, se a prática não for consentânea com a missão da organização, que interesse tem essa discussão quando governar é que é o caminho?


Autor: Luís Martins
DM

DM

18 outubro 2022