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A ouvir também se vê

1. O Natal é um luminoso mistério de palavra e silêncio. Foi no silêncio mais profundo que a Palavra desceu ao mundo. 2. Deus diz tudo e parece que ninguém ouve nada. Foi necessário que os céus falassem para que os homens despertassem (cf. Lc 2, 8-18). 3. O nosso tempo tem separado o silêncio da palavra e não cessa de afastar a palavra do silêncio. Não conseguimos gerar palavras no silêncio e não somos capazes de digerir em silêncio as palavras. 4. Achamos que falar é apenas produzir sons. E é assim que nos descomedimos: em vez de falar, fazemos ruído. Tantas palavras saem dos nossos lábios. Mas quantas palavras chegam aos nossos ouvidos e entram na nossa alma? 5. Será que já olhamos para Maria como mestra da palavra? Maria foi alguém que falou muito: não com os lábios, mas com a vida. Muitas palavras Maria guardou em Si (cf. Lc 2, 19). Mas bastou-Lhe uma palavra para que o mundo nunca mais se esquecesse de Si. Foi a Palavra que Se fez carne no Seu seio (cf. Jo 1, 14; Lc 1, 35). 6. Para Maria, era mais importante deixar ressoar a Palavra do que fazer soar palavras (cf. Lc 1, 38). Foi Deus quem falou no silêncio de Belém. É no silêncio que nós ouviremos Deus também. 7. Maria compreendeu que a ouvir também se vê. Ver é encontrar e há muita coisa que não encontramos com os olhos. Há muita coisa que só encontramos escutando. Mas quem escuta, hoje? 8. Nós, que ocupamos o tempo a ver, vamos passando ao lado do mais belo que pode acontecer. Portamo-nos como aquele homem a que alude Timothy Radcliffe. 9. Sentado a uma mesa, ele olha na direcção de uma mulher que fala, à sua frente. A certa altura, ela diz, extasiada: «O que eu aprecio em ti é que és um ouvinte maravilhoso». Nenhuma resposta, porém. De repente, ela dá conta de que, atrás de si, está um televisor, a emitir um jogo de futebol. Era para trás da mulher que aquele homem olhava. Não era a mulher que aquele homem escutava. 10. É sobretudo a escutar que veremos tanta coisa bela na nossa vida entrar. É por isso que nos faz sempre tão bem respirar o silêncio que vem de Belém!
Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
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19 dezembro 2017