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A cultura humaniza as cidades

Era uma vez uma menina e um ser animal muito pequeno. A vida destas duas criaturas, contada através da história “Os Grandes não têm grandes ideias”, foi apresentada há alguns dias no Auditório Municipal de Vila do Conde, numa criação de Neusa Fangueiro, levada à cena através de marionetas.

Naquela história, os dois seres encontram-se perto do nascer do sol. Junto de um moinho no rio. Junto da casa de Ninguém. Ninguém é o nome deste ser minúsculo, que vem de Lado Nenhum e vai para Nenhum Lado. Gosta de palavras novas, do seu significado e da sua utilidade ou inutilidade.

As dúvidas que pairam nas cabeças destes amigos são as mesmas que habitam em muitos de nós: “Os recursos na Terra são suficientes? O que é a sustentabilidade? Para onde vai o lixo que produzimos? O que é governo e governar?”. Juntos vão descobrir. E nós também, porque, afinal, nem sempre as ideias dos Grandes são grande coisa.

Uma das grandes ideias diz-nos que a Cultura humaniza e dá uma face humana às cidades. É a cultura que gera a consciência cívica, que origina o conhecimento de si mesmo, que contribui para o reconhecimento dos direitos dos outros. Desse ponto de vista, constitui um dever de todos nós, bracarenses, ajudar a construir uma cidade empenhada na consciencialização, na transparência e na responsabilização pública. E tudo isto pode e deve ser conseguido através da Cultura.

Olhamos para Braga – que sonha ser Capital Europeia da Cultura, um sonho legítimo de milhares de bracarenses –, mas parece-nos que os responsáveis autárquicos responsáveis pela ideia ainda não acordaram para perseguirem esses sonhos. Lamentavelmente, não os vemos a despertar para a realidade, colocando em prática as bases programáticas desta ideia grandiosa que é conquistar para Braga mais um título de Capital Europeia.

Nesta, como em tantas outras áreas de intervenção, não se pode fugir entre os pingos da chuva, o sonho cultural de Braga tem mesmo de molhar. Hoje, um dos maiores artistas urbanos do mundo, o português Whils, diz, sem rodeios, que o seu sonho é “humanizar o betão das cidades”.

Como não somos “Grandes”, podemos aproveitar as ideias dos Grandes como Whils, para quem a cidade é sempre o seu ponto de partida e o motor de cada obra. Através de explosivos, escopro e martelo, tem criado em grande escala a fisionomia dos anónimos esquecidos ou ignorados nos subúrbios e selvas urbanas. Esta ideia de Alexandre Farto (Whils) pode ser um ovo de Colombo para quem gere os destinos da Cidade dos Arcebispos, tanto mais que aparentemente tem um sonho europeu.

Todos sabemos quão desumana e solitária pode ser uma cidade de média dimensão. Afirmar que a Cultura humaniza a cidade é uma verdade “la palissada”, um dado adquirido que constitui um excelente ponto de partida para a construção de uma Capital Europeia da Cultura.

O tema desta reflexão é, naturalmente, matéria que poderia ser considerada como de senso comum, mas os pensadores sobre o futuro de Braga podiam começar por responder as estas questões: Como é que a cultura pode ser transformadora? É possível que o indivíduo se transfigure pelo envolvimento cultural e social através da arte? A renovação do indivíduo pela cultura e arte é responsabilidade de quem?

Os desafios são mais que muitos e as respostas tardam em chegar. Entramos, contudo, no novo ano com a esperança coletiva renovada e com a firme convicção de que em 2021 os valores da liberdade, da igualdade e da solidariedade vão prevalecer. Não desistiremos!


Autor: Artur Feio
DM

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5 janeiro 2021