A pandemia tem tido uma canção a várias vozes; a voz da morte que ceifou vidas e semeou a tristeza numa abundância de estarrecer. A voz que semeou a esperança duma vacina que há de vir, se vier. A voz dos cuidados pessoais: passamos a viver de costas voltadas uns para os outros, desviamo-nos nos passeios e olhamo-nos como leprosos; abominamos aqueles que não usam a máscara ou a usam indevidamente. Estamos, deste jeito, numa sinfonia com vozes desafinadas. Mas o que me parece mais custoso, mesmo maior que o medo do vírus maldito, é não poder abraçar o amigo, não estar nas festas familiares, não saber se pode festejar os anos dos filhos e ou outros familiares e não fazer a ceia de natal com a família. É triste termos de nos cumprimentar com o cotovelo; deprimente não darmos uma mãozada de aperto sóbrio mas firme, como prova dum sentimento sem reservas. A voz do atavismo é outra que toca cá dentro; diz-nos que nascemos para estarmos uns com os outros; só gostamos de estar sozinhos em momentos extremos da sentimentalidade. E esta pandemia tocou uma outra canção diferente em tons e harmonias: deixou os corações tristes e a sangrar demonstrando que faz falta a todos nós o quotidiano; ir ao café, dar um passeio , parar para perguntar pelo amigo que não vemos, enfim, com aqueles que um dia tocaram, mesmo que ao de leve, a corda sensível da nossa proximidade. A voz do sonho diz-nos que gostaremos de voltar a ser quem éramos, mas a voz da razão afirma que sem uma vacina nada será como dantes. Até lá resta-nos o caminho das cautelas. Mas uma coisa são as cautelas e as razões que delas dimanam mas outra coisa são os sentimentos reprimidos. A razão diz-nos tem que ser, mas os sentimentos dizem-nos que não pode ser, ou pelo menos que não deve ser durante tanto tempo. Vemos lá dentro de nós, no choro da nossa alma, “uma furtiva lágrima” de medos abafados. Estamos, “fingindo que não é dor, a dor que verdadeiramente sentimos”, parafraseando Fernando Pessoa. A voz da estrutura sentimental diz-nos que residem em cada um de nós, valores que resistem à aridez do botão eletrónico. O que mora dentro de cada um é ninho feito desses valores sentimentais. São a capa e a contra capa do nosso sentir. Formamos uma dignidade pessoal. Sem sentimentos o homem amesquinha-se na nulidade de ser. Profanar estes princípios é roubar um templo e devassar uma dignidade. Sorrir de longe ou acenar à distância para os outros, são como os telegramas que dizem pouco e deixam muito por contar, mas, mesmo assim, falam a linguagem da amizade. A voz dos afetos diz-nos que a sociedade portuguesa é feita de amores por mais racionalista que outros desejassem que fosse. Esta doçura devemo-la ao humanismo religioso cristão. O homem com os outros, é a identidade no espelho da semelhança. Esta pandemia tocou na corda sensível dessa identidade; a riqueza da nossa sociedade não está senão na riqueza deste humanismo. E foi preciso a pandemia para trazer à superfície esta bem entendida maneira de ser de uma sociedade à portuguesa. Quando a convicção vira ação, então também esta vira convicção. Eu sei, porque o experimento, como é custoso abdicar dos afetos próximos. Aproxima-se o Natal e começo a ter medo de o perdermos como perdemos a Páscoa. Se o perdermos a Noite de Paz não será, certamente, uma noite silente. Esta pandemia tem todas estas vozes que cantam as estrofes do humanismo cristão mas tem, como música de fundo, o espectro das crises, sanitária, económica, financeira e política. No meio dos escombros onde procuramos refúgio? Na esperança, claro. Espero, por isso, que na próxima Primavera possamos respirar de alívio. A canção da Cerejeira diz-nos que na Primavera “aparecem milhões de folhas fresquinhas e verdejantes” para a mesa das lagartas. Peço a Guerra Junqueiro que me conceda o perdão pelo atrevimento de dizer que «na próxima Primavera apareçam milhões de vacinas fresquinhas e atuantes», para nos juntar à mesma mesa.
Autor: Paulo Fafe